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Análise do Desempenho na Europa League: a coragem do Braga para enfrentar a pressão

O Observador Técnico da UEFA, David Adams, analisa como as rotações inteligentes e a qualidade no domínio de bola em espaços reduzidos permitiram ao Braga superar a pressão homem a homem do Freiburg na primeira mão das meias-finais da UEFA Europa League.

João Moutinho, do Braga, em acção durante a primeira mão contra o Freiburg
João Moutinho, do Braga, em acção durante a primeira mão contra o Freiburg Getty Images

O delicado equilíbrio entre risco e recompensa manifesta-se no futebol moderno de várias formas. Nos primeiros 45 minutos da primeira mão das meias-finais da UEFA Europa League, disputada no Estádio Municipal, tanto o Braga como o Freiburg mostraram-se claramente empenhados em obter uma vantagem inicial, recuperando a bola através de uma marcação homem a homem ousada.

"A gestão do jogo foi fascinante", explicou o Observador Técnico da UEFA, David Adams, que elogiou ambas as equipas por procurarem alcançar o sucesso desta forma logo no início da eliminatória, mas reservou um elogio especial à coragem da equipa de Carlos Vicens por ter continuado a lutar. "As rotações do Braga na posse de bola tornaram a marcação homem a homem mais difícil para o Freiburg", explicou Adams.

Em colaboração com a unidade de análise de jogos da UEFA, Adams analisa como a equipa da casa conseguiu uma vitória por 2-1, graças a um desempenho na primeira parte em que alcançou uma impressionante taxa de sucesso nos passes de 85% no seu próprio terço defensivo, apesar da pressão alta do Freiburg.

Como foi: Braga 2-1 Freiburg

O homem que Adams destacou como fundamental para o Braga – o veterano médio João Moutinho – resumiu o sucesso da equipa após a partida. "Impusemos o nosso jogo", afirmou o jogador de 39 anos. "Um jogo de posse de bola e controlo, criando oportunidades em jogadas abertas, passe a passe."

A capacidade do Braga de controlar a bola sob pressão

Europa League tactical analysis: Braga composure in tight spaces

"A capacidade do Braga para controlar o ritmo do jogo e ultrapassar a pressão individual foi fundamental", afirmou Adams. "Isto exigiu que os jogadores tivessem a capacidade técnica para receber a bola em espaços reduzidos e combinar rapidamente com poucos toques, de modo a escapar aos marcadores e penetrar na defesa adversária."

O primeiro vídeo (acima) ilustra a eficácia dos movimentos dos avançados para atrair os marcadores para novas posições e criar espaços. Adams observou que, na primeira fase de posse de bola concertada do jogo, "o extremo direito do Braga, ao deslocar-se para o interior, obriga o lateral a abandonar a sua posição e a acompanhá-lo pelo campo, o que resulta em espaços que podem ser explorados."

O segundo vídeo mostra o impacto do recuo do avançado Pau Víctor e a forma como atrai a pressão do defesa-central que o persegue. Ao analisar o campo, ele mantém uma visão global do espaço disponível, do ângulo de pressão do adversário e do posicionamento dos seus companheiros de equipa.

"Este é mais um desafio para os defesas que adoptam uma marcação homem a homem", explicou Adams. "Todos os jogadores do Braga se mostraram à vontade a receber a bola sob pressão e a utilizar combinações rápidas para quebrar a estrutura de pressão." Neste exemplo, Pau Víctor demonstra que possui "as qualidades técnicas necessárias para fazer um passe ao primeiro toque, contornando a defesa, quebrando a linha e criando uma oportunidade para avançar directamente para a baliza."

O primeiro golo – que se vê no terceiro vídeo – surge após uma sequência de jogadas de dois toques que culminam num cruzamento. "Depois, é tudo uma questão de antecipação", afirmou Adams. "Victor Gómez antecipa exactamente para onde o lateral irá cabecear a bola. O primeiro toque é suave, permitindo que o segundo seja rápido e preciso, rematado entre o lateral-esquerdo e o defesa-central do Freiburg, permitindo a Demir Ege Tıknaz marcar."

A exploração constante das alas

Com o resultado empatado ao intervalo, após o golo de Vincenzo Grifo aos 16 minutos, a equipa de Julian Schuster aperfeiçoou a sua estratégia de equilíbrio entre risco e recompensa quando não tinha a posse de bola. "Com o objectivo de garantir um resultado positivo para a segunda mão, passaram a defender mais recuados." Como resultado, o Braga registou 76% de posse de bola após os 60 minutos – um contraste gritante com a divisão de 50% para cada na primeira parte.

Numa tentativa de furar a defesa compacta e fechada, o Braga adoptou uma estratégia que já lhe tinha dado frutos na competição desta época, com 12 dos seus golos a surgirem de jogadas pelas alas.

"A utilização contínua das alas em profundidade é uma táctica frequentemente adoptada para chegar ao último terço do campo e cruzar a partir daí ou da linha de fundo", explicou Adams. "O Braga tem o perfil de jogadores ideal, com alas capazes de actuar por dentro, o que permite aos laterais dar amplitude ao jogo. Esta estratégia foi aplicada com sucesso, especialmente no lado direito, com Victor Gómez mais avançado e o extremo-direito Rodrigo Zalazar a jogar invertido, e contribuiu para ambos os golos."

O impacto de João Moutinho

Europa League tactical analysis: Moutinho impact

As frequentes investidas pela direita foram apoiadas pelo jogador apontado por Adams como "o orquestrador" do poder ofensivo do Braga. "João Moutinho demonstrou o domínio técnico, a capacidade de decisão e a visão de jogo necessárias para controlar o meio-campo", afirmou. O experiente médio, que conta com 146 internacionalizações pela selecção de Portugal, "demonstrou todas as qualidades essenciais para que um número 6 actue ao mais alto nível".

A "incrível capacidade de João Moutinho para ditar o ritmo do jogo" destacou-se na segunda parte. "Quando as linhas defensivas estão compactas e a equipa joga recuada, o espaço fica inevitavelmente limitado", explicou Adams. "É aqui que João Moutinho se torna fundamental para a estratégia. A sua capacidade de atrair a pressão e esperar pelo momento certo para libertar a bola permite eliminar adversários. Além disso, proporciona equilíbrio à equipa nas transições, evitando contra-ataques."

O emotivo golo da vitória aos 92 minutos, que pode ser visto no vídeo acima e que foi destacado na análise inicial ao jogo, é a demonstração perfeita da perspicácia técnica e da liderança de João Moutinho. O nº8 do Braga troca passes com dois colegas de equipa junto à linha lateral para receber a bola de frente para a baliza, pelo lado direito – o lado onde completou 34 dos seus 85 passes.

"Rodeado por jogadores do Freiburg nos últimos segundos, João Moutinho executa um excelente passe por cima que deixa para trás nove adversários e liberta Victor Gómez por trás da linha defensiva, permitindo-lhe fazer o cruzamento que resultou no remate de Mario Dorgeles."

Foco no treino orientado

Adams é claro quanto à importância de desenvolver as competências demonstradas por João Moutinho e os seus colegas de equipa. "O futebol moderno exige a capacidade de controlar a bola sob extrema pressão individual e de encontrar soluções para manobrá-la, ao mesmo tempo que se desenvolvem as competências de visão de jogo necessárias para receber a bola com o mínimo de toques, de modo a avançar e ultrapassar as linhas defensivas. Por isso, os treinadores devem conceber exercícios que sejam simultaneamente desafiantes e realistas em relação ao jogo."

Adams salienta também a importância de ajudar os jogadores a compreender "o porquê" antes de "o como".

"Os cenários relacionados com o jogo utilizados nos treinos expõem os jogadores ao que provavelmente irão enfrentar e permitem-lhes desenvolver maior inteligência de jogo e capacidade de tomada de decisão, através da compreensão do problema que procuram resolver. Isto ajuda os jogadores a envolverem-se e a empenharem-se mais na sessão, uma vez que reconhecem que o objectivo é resolver um problema, em vez de simplesmente executar um movimento. No caso deste exercício, o objectivo é testar as capacidades de observação e percepção necessárias para jogar em espaços reduzidos sob pressão do adversário."

Restrições do treino

Assim que os jogadores se sentirem à vontade com o exercício, podem ser introduzidas restrições para aumentar a dificuldade e desafiá-los. Os exemplos incluem:

Máximo de 2 ou 3 toques
Jogador livre limitado a 1 ou 2 toques
Aumentar o número de passes necessários

Director-geral de futebol da Federação de Futebol do País de Gales, David Adams supervisiona a selecção principal masculina e feminina. Anteriormente professor de Ciências do Desporto, foi responsável pelos escalões de formação do Swansea City e treinador adjunto do Middlesbrough antes de assumir o cargo actual.