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Análise de desempenho na UEFA Europa League: Braga cirúrgico aproveita ponto de viragem para surpreender Real Betis

Wayne Allison, Observador Técnico da UEFA, analisa as mudanças cruciais na segunda mão dos quartos-de-final da UEFA Europa League entre Real Betis e Braga, em que duas equipas pressionantes se revezaram no domínio do jogo graças a uma postura dinâmica nas alas.

O Braga celebra a vitória frente ao Real Betis
O Braga celebra a vitória frente ao Real Betis Getty Images

Seis golos, quase 100 minutos de emoção e um "momento crucial típico de um jogo emocionante" entre duas equipas enérgicas e com forte pressão. Foi desta forma que Wayne Allison, Observador Técnico da UEFA, descreveu o jogo decisivo dos quartos-de-final da UEFA Europa League entre Real Betis e Braga.

O momento decisivo em questão foi um golo anulado a Abde Ezzalzouli aos 31 minutos, poucos minutos após o avançado do Real Betis ter feito o 2-0 para a sua equipa e numa altura em que os espanhóis dominavam o jogo.

Tal como aconteceu: Real Betis 2-4 Braga

O treinador do Braga, Carlos Vicens, aproveitou a oportunidade. "Usei esse tempo [da revisão do VAR] para falar com alguns jogadores, principalmente com o Florian [Grillitsch], sobre o posicionamento no meio-campo", disse ao Canal+ após a partida. "Esses ajustes ajudaram-nos a controlar um pouco mais o jogo".

O golo de Pau Victor para o Braga, apenas sete minutos depois, "mudou ainda mais a energia da partida", segundo Vicens, cuja equipa virou o jogo com uma reviravolta notável na segunda parte. "O Braga foi preciso e devastador", disse Allison. "Marcou quatro golos nos primeiros quatro remates à baliza".

Na análise abaixo, a unidade de análise de jogos da UEFA aprofunda o que Allison classificou de "jogo fascinante entre equipas com abordagens contrastantes, onde a crença e as mudanças de ascendente foram cruciais".

Estratégias de pressão alta

Análise: estratégias de pressão alta

Começando por uma estratégia comum a ambas as equipas, Allison ficou impressionado com a "intensidade da pressão" demonstrada, "particularmente a pressão alta dos médios do Betis, activando o momento de pressão ao mesmo tempo na primeira parte, e os alas do Braga a trabalharem em conjunto na segunda parte".

O primeiro clip do primeiro vídeo mostra as acções coordenadas dos seis jogadores mais adiantados do Betis, a recuperarem a bola em zona ofensiva no lance que terminou com o golo de Antony. "O Betis sabia que o Braga queria jogar pelo meio", disse Allison. "Mantiveram-se compactos, criaram armadilhas e recuperaram a bola em zonas perigosas, activando depois um arranque rápido e fulminante".

Enquanto o Betis manteve uma "estrutura de pressão híbrida", com um defesa livre para proteger a linha defensiva, o Braga teve uma abordagem total, de homem-a-homem, em várias ocasiões. O segundo clip mostra um exemplo do Betis a furar essa pressão com um lançamento longo do guarda-redes. No terceiro clip, vemos o Braga recuperar a posse de bola com a mesma intensidade e coesão que originou o penálti convertido por Ricardo Horta aos 53 minutos, garantindo uma importante vantagem de 3-2.

O impacto de Antony e Bellerín

Análise: Braga adapta-se ao perigo nas alas

Alisson destacou a dinâmica entre o extremo Antony e o lateral-direito Héctor Bellerín como fundamental para o domínio do Betis na primeira parte. "Mantiveram muito bem a amplitude do jogo e combinaram jogadas de forma inteligente e rápida, com infiltrações e lances de superioridade numérica, ao mesmo tempo criando também superioridade no meio-campo", disse.

O primeiro clip do segundo vídeo mostra a ameaça conjunta representada pela dupla do Betis, que alternava com investidas ao ataque para penetrar na linha defensiva. No entanto, como ilustra o segundo clip, "o Braga adaptou-se na segunda parte para neutralizar a ameaça".

Então, como conseguiu isso?

"Atitude e comunicação", explicou Alisson. "Os jogadores da ala esforçaram-se mais para conter Antony e Bellerín, negando-lhes tempo e espaço. A comunicação entre uma dupla de centrais é vital. Trabalhar em conjunto para fechar o espaço frustrou os avançados do Betis. E se Antony ou Bellerín conseguiam desmarcar-se, as corridas de recuperação eram rápidas. Entregaram-se de corpo e alma para impedir que o Betis marcasse após o intervalo".

Braga também ameaça pelos flancos

Análise: a mudança do Braga na segunda parte para usar a profundidade

O segundo golo do Betis, mostrado no primeiro clip do terceiro vídeo, demonstra exactamente como o Braga teve dificuldades em jogar pelo meio na primeira parte.

Num contraste flagrante, após o intervalo, o Braga procurou espaços pelas alas para criar mais oportunidades de ataque. O segundo clip ilustra este ponto. Uma sequência de posse de bola paciente pela esquerda leva ao momento em que Jean-Baptiste Gorby selou o resultado e o apuramento da equipa portuguesa para as meias-finais, com a obtenção do quarto golo.

"Ao manter a amplitude, o Braga permitiu mais liberdade aos médios e criou espaço para os avançados", disse Allison. "Conseguiam encontrar os atacantes com mais facilidade e procuravam atacar com triângulações e combinações a um ou dois toques. Os seus ataques já não eram adequados à forma de defender do Betis".

Para Allison, a maior confiança em colocar jogadores no ataque em zonas laterais – "baseada na comunicação e na confiança de que a bola não seria perdida" – exemplificou a transformação na mentalidade do Braga após o intervalo.

"O momento da mudança de ascendente foi enorme", explicou. "A paragem após o golo anulado deu-lhes tempo para ajustar e discutir as coisas, para se reorganizarem. Provavelmente teriam ficado satisfeitos por manter o resultado de 2-0 ao intervalo, mas conseguiram o bónus extra de um golo antes do descanso. Isso confirmou que não estavam fora do jogo. Identificaram os perigos e isso foi a base para partirem para uma grande exibição.

"Do ponto de vista do treinador bracarense, a segunda parte foi uma reacção de sonho dos jogadores à adversidade".

Foco no treino: a arte de pressionar

"A arte de pressionar consiste em tornar o jogo previsível", disse Allison. "Ambos os lados demonstraram excelência em momentos diferentes".

Como?

"Ao pressionar alto, uma estratégia é sobrecarregar um lado para montar armadilhas e condensar o jogo. Ambas as equipas usaram os seus atacantes em marcação individual em alguns momentos para bloquear e forçar o jogo para uma área específica. Por vezes, se o guarda-redes tem a posse de bola e não decidiu para que lado jogar, a marcação individual pode evitar o passe rápido. Assim, o primeiro passe para um defesa-central inicia a pressão e todos os jogadores se envolvem e tentam recuperar a bola. O Braga pressionou individualmente com mais frequência, enquanto o Betis geralmente tinha jogadores entre linhas em posições de pressão híbrida.

"Quando os avançados são superados pelos lançamentos longos do adversário, o fundamental é ganhar a segunda bola. O Betis deu uma lição magistral na primeira parte, mantendo-se compacto, ditando o ritmo do jogo pelo meio, onde havia muita confusão, e correndo para disputar a segunda bola".

Quem?

"Os treinadores vão trabalhar toda a semana nas tácticas e na mentalidade necessária para pressionar alto", disse Allison. "Mas, no fim de contas, são os jogadores que ditam a estratégia em campo. Os jogadores precisam de sentir isso. É uma questão de atitude. Eles sabem que não há nada pior do que sentir-se o elo mais fraco da corrente. Como treinador, é preciso orientar a abordagem, mas, em campo, os jogadores precisam da atitude certa para se comprometerem pela equipa".

Porquê?

"Simples. Pressionar alto traz a maior recompensa. Quanto mais alto no terreno se recuperar a bola, mais perto se fica da baliza para criar uma ocasião de golo e marcar".

Após uma carreira de 20 anos como jogador em Inglaterra, Wayne Allison assumiu cargos ligados ao treino antes de obter um doutoramento pelo seu trabalho sobre a forma como o exercício de alta intensidade afecta a tomada de decisões no futebol. Actualmente, é diretor de formação da PGMOL, a entidade que representa os árbitros profissionais de Inglaterra.