Análise de Desempenho na Champions League: como os planos tácticos dos finalistas deram frutos
segunda-feira, 11 de maio de 2026
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Com comentários dos Observadores Técnicos da UEFA, Rui Faria e Ange Postecoglou, a unidade de análise de jogos da UEFA analisa as vitórias de Arsenal e Paris Saint-Germain rumo à final da Champions League.
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O que é preciso para chegar à final da UEFA Champions League? Os ingredientes podem ser variados, mas incluem certamente o brilhantismo individual, um excelente trabalho de equipa e a sorte de estar do lado certo nessas situações decisivas.
No caso do Arsenal e do Paris Saint-Germain, podemos acrescentar mais um aspecto: nomeadamente, a aplicação impressionante e bem-sucedida de um plano táctico em cada uma das segundas mãos das meias-finais da semana passada.
Com a sua abordagem, ambas as equipas responderam a um desafio específico enfrentado na primeira mão – respectivamente, o bloco organizado do Atlético de Madrid e a ameaça dos alas do Bayern. A resposta do Arsenal consistiu em jogadas de profundidade, enquanto a do Paris foi um esforço defensivo colectivo que iremos aprofundar a seguir, com o apoio dos observadores técnicos da UEFA, Rui Faria e Ange Postecoglou.
As jogadas em profundidade do Arsenal
"Eles querem controlar o jogo", afirmou o Observador Técnico da UEFA, Edin Terzić, ao analisar a abordagem do Atleti na primeira mão. O Arsenal respondeu na noite de terça-feira passada, garantindo que, sempre que houvesse algum espaço atrás do bloco do Atleti, aproveitasse essa oportunidade com lançamentos em profundidade para desorganizar a defesa.
Como mostra o gráfico acima, enquanto na primeira mão os jogadores do Arsenal tinham feito um total de 35 corridas nas costas da defesa, agora foram 63. Só o avançado Viktor Gyökeres fez 29 – e, nesse processo, percorreu um total de 722 metros em sprints.
Grande parte do perigo ofensivo do Arsenal na vitória por 1-0 resultou de lançamentos por trás da defesa – 1,3 do seu xG total de 1,6.
O vídeo acima apresenta uma série de exemplos: o primeiro envolve Ben White, Bukayo Saka e Eberechi Eze, e o segundo mostra como Saka consegue ficar nas costas de Matteo Ruggeri com um movimento inteligente.
Faria observou: "Podemos considerar a corrida nas costas da defesa como um dos movimentos mais importantes no futebol, pois permite a uma equipa alargar as linhas defensivas adversárias, criar espaços entre as linhas e transformar a posse de bola em penetração."
O resto do vídeo centra-se em Gyökeres, o ponta-de-lança cujos movimentos, na opinião de Faria, contribuíram para dissuadir o Atleti de pressionar agressivamente em alguns momentos.
"Em vez de pensarem em avançar para comprimir o espaço e apoiar a pressão, os defesas do Atleti preocupam-se em proteger o espaço atrás deles e em defender a sua própria baliza", explicou.
"A sua dedicação e o que está a dar à equipa são simplesmente incríveis", afirmou o treinador do Arsenal, Mikel Arteta, e, como mostra o último vídeo, foi uma arrancada do sueco por trás da defesa que resultou no golo da vitória de Saka. "Essa ameaça obriga a defesa do Atleti a recuar e a defender mais perto da sua própria baliza", acrescentou Faria, e o Arsenal fez-lhes pagar por isso.
Rui Faria: importância dos lançamentos nas costas da defesa
• Criam incerteza – os defesas são obrigados a virar-se e a ficar de frente para a própria baliza. Sentem-se menos à vontade quando estão de frente para a própria baliza, pois isso gera incerteza e hesitação.
• Criam espaço – mesmo que que acorre ao lançamento não receba a bola, os defesas recuam para acompanhar o movimento, abrindo espaços entre as linhas para os outros jogadores.
• Aumentam a velocidade – em vez de fazer circular a bola lentamente em torno de um bloco compacto, uma corrida bem sincronizada pode contornar a pressão e criar rapidamente uma oportunidade.
• Alarga as defesas – sem jogadores a entrar nas costas, os defesas podem avançar no campo e reduzir o espaço. As constantes investidas tornam essa compactação mais difícil.
O "efeito funil" de Paris fecha as zonas centrais
Passando o foco para a segunda mão entre o Bayern e o Paris, Ange Postecoglou destacou o trabalho defensivo dos visitantes para conter a ameaça dos alas Michael Olise e Luis Díaz, após as suas brilhantes exibições – com golos marcados – na primeira mão, que teve nove golos. Para Postecoglou, o factor-chave foi a forma como os jogadores do Paris cobriram as zonas centrais do campo.
Postecoglou explicou: "Se olharmos para o Bayern, muitos dos seus golos resultam de situações de um contra um, com os seus alas a cortarem para dentro, a fazerem passes transversais na área ou a cruzarem de primeira. Nunca tiveram oportunidade de o fazer porque o Paris recuava sempre em massa para essas zonas."
Descreveu a situação como sendo a equipa francesa "a recuar para aquela zona central", e vemos isso claramente ilustrado no vídeo acima, que mostra exemplos da retirada dos jogadores de Luis Enrique.
O Paris recuou com muitos jogadores e manteve sempre uma vantagem numérica na defesa da sua área. Demonstrou inteligência na forma como defendeu, e o exemplo de Willian Pacho no terceiro vídeo ilustra bem isso: repare como ele incentiva o seu companheiro de equipa, Nuno Mendes, a forçar Olise a ir para a lateral, em vez de para o interior, para o seu pé preferido. Quando a bola chega, o Paris está preparado, com muitos jogadores na sua área. "Eles cobriram todos os cenários possíveis", acrescentou Postecoglou.
"O Paris defendeu os cruzamentos de forma incrível. Defenderam sempre muito bem as segundas bolas. Foram simplesmente bastante activos e, apesar de termos criado situações de perigo, impedir que conseguíssemos rematar."
O vídeo final abaixo mostra o Paris a defender com uma linha defensiva recuada – e a impedir o Bayern de criar oportunidades de remate. "Normalmente, é aqui que o Bayern consegue criar algumas oportunidades", afirmou Postecoglou, "mas não conseguiram porque a densidade defensiva e a disciplina do PSG não o permitiram."
O último ponto destacado por Postecoglou, que também vemos neste vídeo, é a gestão do jogo por parte do Paris quando surgiram oportunidades de contra-ataque. "Eles certificavam-se sempre de que havia jogadores atrás da bola", afirmou. "Tendo em conta o contexto do jogo, havia uma estrutura defensiva e uma mentalidade muito sólidas, sem que isso limitasse a sua capacidade de causar perigo ao adversário nas transições."
Reflexão de treino: mentalidade colectiva
O treinador do Paris, Luis Enrique, elogiou a excelência defensiva da sua formação na segunda mão em Munique e, para Ange Postecoglou, o desempenho da equipa constituiu um exemplo brilhante do poder que os jogadores talentosos têm quando se comprometem com o espírito de grupo. "Vimos uma adesão colectiva ao que a equipa precisava naquele dia", afirmou Postecoglou.
Depois da emoção ofensiva da vitória por 5-4 na primeira mão, este foi o outro lado do Paris – "um lado do jogo que talvez não tivessem precisado de mostrar até agora", como indicou Postecoglou sobre uma equipa que, de modo algo invulgar, teve apenas 34% de posse de bola contra o Bayern.
"Tivemos jogadores ofensivos muito criativos que compreenderam que os princípios defensivos eram extremamente importantes neste jogo, e que os seguiram e se mostraram extremamente disciplinados, ao pormenor. Acho que esse é o ponto principal do trabalho do treino: existe essa compreensão colectiva de que, num jogo como este, em particular, em que é preciso respeitar o que o adversário traz para o campo, não importa quem se é ou qual a posição, haverá momentos em que todos terão de defender e seguir os princípios defensivos."
"Quando se consegue o apoio de todo o grupo, torna-se realmente difícil ganhar vantagem sobre uma equipa como o PSG. Essa mentalidade colectiva foi fundamental para que eles conseguissem superar o Bayern."
Rui Faria trabalhou como adjunto de José Mourinho, tendo conquistado a Taça UEFA e a UEFA Champions League no Porto, vários títulos nacionais com o Chelsea e o Real Madrid, a Champions League de 2009/10 com o Inter e, posteriormente, a UEFA Europa League de 2016/17 com o Manchester United.
Depois de ter consolidado a sua reputação como treinador na Austrália, Ange Postecoglou, nascido na Grécia, levou o seu estilo de jogo ofensivo para a Europa, tendo conquistado a dobradinha nacional e, posteriormente, a tripla de troféus nacional em duas temporadas no Celtic, antes de conduzir o Tottenham à conquista da Europa League em 2024/25.