Histórias das Pessoas da UEFA: conheça o Dawit, da arquitectura na Etiópia às tecnologias de informação na Suíça
terça-feira, 14 de abril de 2026
Sumário do artigo
Após chegar à Suíça, Dawit ingressou no Powercoders, um programa que capacita refugiados e migrantes com as competências necessárias para seguirem uma carreira na área das tecnologias da informação, o que acabou por levá-lo a um estágio na UEFA.
Conteúdo media do artigo
Corpo do artigo
Contexto e início da carreira
Chamo-me Dawit Teum Gebru e sou natural da Etiópia. A minha formação profissional é em arquitectura. Estudei e trabalhei nessa área durante alguns anos na Etiópia e na China. Quando terminei o ensino secundário e entrei para a universidade, havia duas áreas que me apaixonavam: engenharia de software e arquitectura.
Sempre adorei desenhar. Quando era criança, desenhava muito, e o meu pai incentivava-me imenso. No liceu, frequentei aulas de desenho técnico e adorei; esse foi o meu primeiro passo concreto no mundo da arquitectura. Achei o processo criativo profundamente gratificante, especialmente trabalhar com modelos 3D e físicos. Lembro-me de passar noites incontáveis no estúdio com os colegas, a construir modelos juntos. Aquela energia criativa era algo de que realmente gostei.
Mudança de carreira e para a Suíça
Depois surgiu a COVID, seguida pela guerra na Etiópia. Tudo teve de parar e eu tive de deixar o país. Quando cheguei à Suíça, não era viável continuar a exercer arquitectura. Aqui, trata-se de uma profissão regulamentada e o meu diploma não podia ser reconhecido directamente. Para trabalhar na área, teria de frequentar vários cursos de francês (proficiência profissional) e passar, no total, pelo menos seis anos a obter um diploma de bacharelato que fosse reconhecido na Suíça.
Por isso, voltei a considerar as minhas opções iniciais: arquitectura e as tecnologias de informação (TI). O meu irmão trabalha na área de TI e, depois de falar com ele e ouvir as suas experiências e as dos seus colegas, percebi que talvez também pudesse gostar disso.
Descobrir a Powercoders e começar de novo
Depois de chegar à Suíça em Março de 2024, dediquei algum tempo a tratar da documentação e das autorizações e estudei francês durante seis meses como parte do meu processo de integração. Foi então que conheci um amigo que me falou da Powercoders: um bootcamp que o ajudou a conseguir um emprego na área das tecnologias da informação. Ele tinha concluído o programa e já estava a trabalhar num banco.
Entrei para a Powercoders em Janeiro de 2025. Trata-se de um curso intensivo de três meses concebido para apoiar imigrantes como eu na transição para o sector das tecnologias da informação. As pessoas têm origens muito diversas: professores, contabilistas, recém-licenciados e até engenheiros civis. O programa centra-se tanto em competências básicas de programação como em competências sociais; na cultura de trabalho suíça e na adaptabilidade. Não se trata de ensinar todos os pormenores técnicos em três meses, mas sim de nos ajudar a tornar-nos flexíveis, abertos à aprendizagem e prontos para nos integrarmos no mercado de trabalho suíço.
Estágio na UEFA: um novo capítulo
A Powercoders organizou uma ronda de entrevistas rápidas, à qual tive a oportunidade de assistir. Estavam presentes várias empresas, incluindo a UEFA. Foi nessa altura que conheci os meus colegas da UEFA. Pouco tempo depois, fui convidado para uma segunda entrevista e, por fim, seleccionado para o estágio. Agora, quase dois meses depois de ter começado o meu estágio na UEFA, estou agradavelmente surpreendido. Tinha uma boa ideia de como seria trabalhar na Suíça, mas a UEFA superou as minhas expectativas e foi melhor do que eu esperava. As pessoas são compreensivas, encorajadoras e estão sempre dispostas a ajudar.
"Tinha uma boa ideia de como seria trabalhar na Suíça, mas a UEFA superou as minhas expectativas e foi melhor do que eu esperava. As pessoas são compreensivas, encorajadoras e estão sempre dispostas a ajudar."
Trabalho na equipa de TIC, mais concretamente na área de Eventos, Espaços e Transmissão. Algumas das minhas tarefas incluem a análise, limpeza, preparação e visualização de dados para apoiar a tomada de decisões. Também trabalhei numa proposta para o projecto do espaço de uma fan zone. Normalmente, os eventos pré-jogo são planeados através de documentos escritos e e-mails. A nossa proposta sugeria a utilização de modelos 3D e vídeos animados para ajudar os municípios e as partes interessadas a visualizar melhor o espaço e evitar mal-entendidos.
Pôr em prática os meus conhecimentos de arquitectura neste contexto foi realmente especial. Conquistei a confiança da equipa e fui incentivado a aproveitar a minha experiência anterior para a minha nova função na área de TI. Também trabalhei em protótipos de aplicações que temos, com foco na experiência do utilizador (UX) e na interface do utilizador (UI). Embora ainda esteja a aprender, isso ajudou-me a compreender o comportamento dos utilizadores e a forma como as pessoas interagem com as aplicações.
“Pôr em prática os meus conhecimentos de arquitectura neste contexto foi realmente especial. Conquistei a confiança da equipa e fui incentivado a aproveitar a minha experiência anterior para a minha nova função na área de TI.”
Arquitectura e TIC: estimular a criatividade
A transição da arquitectura para as TIC tem sido desafiante, mas gratificante. Algumas tarefas permitem-me explorar o meu lado criativo, especialmente a visualização de dados.
Acho que a criatividade surge quando nos sentimos à vontade com algo. Ainda estou a aprender, mas vejo formas de ser criativo.
Uma semelhança entre as duas áreas é a componente de auto-aprendizagem. Na universidade, tivemos de dominar as ferramentas digitais por nossa conta, principalmente através do YouTube e por tentativa e erro.
Às vezes, preciso de várias tentativas para resolver um problema. Posso experimentar diferentes abordagens, ver tutoriais ou pedir conselhos aos meus colegas. Mas acabo sempre por chegar à solução e gosto muito desse processo de aprendizagem.
Olhando para o futuro: os meus objectivos para o próximo ano
A nível profissional, estou muito entusiasmado por continuar a desenvolver-me na área do processamento de dados. Pretendo ganhar mais confiança através de um conhecimento mais aprofundado e de experiência prática. O meu objectivo é trabalhar em projectos que façam realmente a diferença e continuar a integrar-me bem na cultura de trabalho suíça.
Também comecei a obter certificações através de plataformas como a Coursera e a DataCamp. Estou a tentar obter o maior número possível e a absorver o máximo de conhecimentos sobre análise e visualização de dados. Há muito para aprender, mas estou a gostar do processo.
A nível pessoal, tenho dois grandes objectivos. Em primeiro lugar, quero aprender a esquiar neste Inverno. Nunca experimentei e parece-me um ritual de passagem para quem vive na Suíça! Em segundo lugar, lancei um desafio a mim próprio: visitar 35 países até aos 35 anos. Faltam-me cinco anos e, até agora, já visitei sete: Etiópia, China, Polónia, Suíça, Bielorrússia, Bélgica e Países Baixos. Portanto, ainda me faltam 28! (risos)
"Quero aprender a esquiar neste Inverno. Nunca experimentei e parece-me um ritual de passagem para quem vive na Suíça!"
Felizmente, a Europa é muito mais pequena do que a Etiópia, que, já agora, tem aproximadamente o tamanho da França, da Alemanha, da Suíça e de quase toda a Áustria juntas. Por isso, estou optimista de que vou conseguir!