"É preciso coragem para combater o racismo"
quinta-feira, 5 de março de 2009
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A sessão de quarta-feira à tarde da conferência Unidos Contra o Racismo foi dedicada aos jogadores. Lilian Thuram, Roger Guerreiro e outros falaram sobre as respectivas experiências nos recintos de futebol.
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A sessão de quarta-feira à tarde da conferência Unidos Contra o Racismo, em Varsóvia, na Polónia, foi dedicada aos jogadores, que falaram sobre as suas experiências com o racismo nos estádios. Lilian Thuram, atleta mais internacional de sempre de França e agora fervoroso militante das campanhas contra o racismo, participou numa sessão de perguntas e respostas com os delegados, à qual se seguiu um animado painel de discussão que contou com as participações do internacional polaco Roger Guerreiro, que é natural do Brasil, e do médio senegalês Papa Samba Ba.
Lilian Thuram, antigo defesa da selecção francesa
Falamos do racismo no futebol como se ele só existisse nos estádios, mas também está presente na sociedade. Para combater o racismo temos de, em primeiro lugar, compreender que o racismo faz parte da nossa cultura. Infelizmente, algumas pessoas pensam que, hoje em dia, já não existe muito racismo. Considero que tem havido falta de coragem de ver as coisas como elas realmente são. Temos de olhar para a nossa história, para depois desmontar os preconceitos que todos temos. O facto de [Barack] Obama ser presidente [dos Estados Unidos] constitui uma grande mudança. O racismo está na imaginação, é a forma como imaginamos os outros. Com Obama como presidente, a imaginação das pessoas vai ter um novo desafio. Basta recordar o que passou na década de 1950, quando Rosa Parks [activista dos direitos civis] não tinha direito a sentar-se num autocarro. No entanto, 50 anos mais tarde os Estados Unidos elegeram um presidente negro.
Pape Samba Ba, MKS Znicz Pruszków
Houve um jogo em que o árbitro não fez nada para terminar com os insultos. Chegou a um ponto em que não aguentei mais. Sofri uma falta e perdi a cabeça. Fui admoestado com um cartão amarelo, fiz um gesto de que me arrependo e fui expulso. Perguntei por que tinha visto o cartão vermelho. Decidi que não ia deixar isto passar em claro, pois foi um momento difícil de ultrapassar.
Vladimír Sendrei, Instituto Público de Política de Roma
Quando tinha 21 anos, era o único jogador com pele escura da minha equipa. Fui alvo de cânticos racistas e de outras coisas humilhantes. Percebi que tinha que de ultrapassar esses insultos para poder jogar. Para o conseguir, precisei de pessoas em meu redor que não olham para a cor da pele e preferiam avaliar as pessoas pelo talento e pela capacidade. Os jovens dos escalões de formação deviam usar o futebol como forma de aprenderam mais sobre as suas próprias culturas e sobre as dos outros. Todos somos provenientes de origens culturais diferentes, pelo que a integração e intercâmbio cultural deveriam ser promovidos desde as idades mais jovens.
Roger Guerreiro, internacional polaco do Legia Warszawa
Tive a infelicidade de encontrar o racismo dentro e fora de campo. Ninguém é melhor ou pior por causa da cor da sua pele. Somos indivíduos e temos de viver em sociedade da forma como somos. O racismo é um problema relacionado com a cultura e com a educação. As crianças podem ver mensagens contra o racismo na televisão. Os políticos têm a obrigação de apoiar estas causas, mas todos têm o dever de combater o racismo. Temos de juntar forças para enfrentar esta questão. Os jogadores de futebol têm o papel importante de sensibilizar o público, especialmente os adeptos mais jovens.
Paul Elliott, antigo futebolista profissional inglês
Os jogadores profissionais podem influenciar as pessoas. Os bons exemplos resultam da forma como nos comportamos. Todos nascemos livres de preconceitos e da discriminação, mas quando crescemos o ambiente influencia a nossa forma de pensar e de agir. O futebol tem a obrigação de desafiar os nossos preconceitos e os futebolistas deram um contributo muito positivo nesta área. Na década de 1970, a imprensa chegou a afirmar que o racismo fazia parte do deporto, mas não faz. Os futebolistas têm o direito de trabalhar num ambiente livre de racismo e de seu local de trabalho são os estádios.