Francisco Neto fala sobre Portugal e a estreia no EURO Feminino

Antes da estreia de Portugal no UEFA Women's EURO 2017, Francisco Neto fala dos momentos altos da qualificação, aborda o crescimento do futebol feminino no país e perspectiva o torneio da Holanda.

O seleccionador de Portugal, Francisco Neto, ao lado do troféu do EURO Feminino no sorteio da fase de grupos, em Roterdão, na Holanda
O seleccionador de Portugal, Francisco Neto, ao lado do troféu do EURO Feminino no sorteio da fase de grupos, em Roterdão, na Holanda ©Sportsfile

Antes da estreia absoluta de Portugal no UEFA Women's EURO 2017, na terça-feira, frente à Espanha – num Grupo D que inclui ainda a Escócia e a Inglaterra –, o seleccionador Francisco Neto, de 36 anos e no comando da selecção desde Fevereiro de 2014, fala dos momentos altos da qualificação, aborda o crescimento do futebol feminino em Portugal nos últimos anos e perspectiva o torneio da Holanda.

"Queremos mostrar que não foi por acaso que chegámos ao Campeonato da Europa, mas sim por mérito próprio", afirmou Francisco Neto sobre o que espera de Portugal, país com o ranking mais baixo entre os presentes, no primeiro torneio com 16 participantes.

O que significa ser o treinador que levou Portugal à primeira fase final do EURO Feminino?

É uma honra muito grande, mas não é um trabalho só do treinador, é de um enorme conjunto de pessoas e de todo o staff da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Sermos os primeiros a atingir um objectivo muito difícil foi algo que nos levou para outro patamar quanto ao nível de satisfação e de dever cumprido.

Quais os momentos cruciais na qualificação de Portugal?

Penso que foi a Algarve Cup, no ano passado, curiosamente com quatro derrotas, porque as jogadoras mostraram que algo estava diferente. Deram uma resposta bastante positiva contra equipas muito mais fortes e só os resultados não apareceram... Posso também referir a parte final da época, com o segundo tempo que fizemos frente à Espanha [derrota em casa por 4-1], a ida a Montenegro [vitória por 3-0] e o empate [0-0] na Finlândia que deixou tudo em aberto [faltava receber as finlandesas e viajar à República da Irlanda].

Como foi bater a Finlândia por 3-2 após estar a perder por 2-0 e depois a Roménia no “play-off” [total 1-1, Portugal apurado devido ao golo fora]?

Portugal festeja efusivamente a vitória sobre a Finlândia, em Setembro
Portugal festeja efusivamente a vitória sobre a Finlândia, em Setembro©FPF

Foi um mês de loucos! [Em Setembro, nos últimos dois jogos de qualificação, Portugal venceu a Finlândia a 16 e, quatro dias depois, fez o mesmo na Irlanda, garantindo o apuramento para o “play-off”.] Não podíamos perder aquele jogo com a Finlândia. Ganhámos com todo o mérito – a partir dali nada nos podia parar. Depois de virarmos um jogo daqueles, era impossível não estarmos no Europeu e isso foi também uma força extra para as jogadoras.

Com a Roménia [em Outubro], após o empate a zero em Lisboa, num jogo em que falhámos um penalty, acabámos por ser felizes e trazer de lá o empate que foi suficiente para nos qualificarmos, mas com todo o mérito. Foi um Portugal ao mais alto nível, cheio de carácter.

E o que podemos esperar de Portugal neste EURO Feminino?

Nunca estivemos tanto tempo juntos, mas o bom relacionamento que se vive neste grupo é algo que nos tranquiliza. As jogadoras sentem que são uma família. Somos bastante unidos.

Elas têm vindo a interiorizar o que significa “jogar à Portugal”, característica que queremos que exista desde a formação. Trata-se de fazer um jogo de paixão, de querer, de carácter, de não ter receio dos adversários, de procurar assumir o jogo e, ao mesmo tempo, sentir-se confortável quando não se domina. Vamos ter de saber sofrer, passar algum ou muito tempo sem bola, e depois ter qualidade no que fazemos. Queremos mostrar que não foi por acaso que chegámos ao Campeonato da Europa Feminino, mas sim por mérito próprio.

Porque demorou Portugal tanto tempo a chegar a este nível no futebol feminino?

Francisco Neto festeja com Andreia Norton, autora do golo decisivo para Portugal na Roménia
Francisco Neto festeja com Andreia Norton, autora do golo decisivo para Portugal na Roménia©FPF

Com a implementação do plano estratégico por parte da FPF, de há cerca de três anos a esta parte, estamos a tentar aumentar o número de praticantes. Temos cerca de 3500 jogadoras, enquanto em Inglaterra, nossa adversária no Europeu, há quase 110.000 – o poder de escolha é completamente distinto. Isto faz com que tenhamos de fazer um trabalho de base muito maior e isso tem sido feito – temos neste momento três selecções de formação, Sub-16, Sub-17 e Sub-19.

As jogadoras chegam também de clubes cada vez mais organizados e com estruturas profissionais, têm melhores condições e disputam campeonatos cada vez mais competitivos, mesmo em Portugal.

Definimos como caminho a seguir situações em que defrontamos as melhores equipas, em que tentamos superar-nos a cada momento, muitas vezes expondo-nos à situação de não conseguir resultados positivos. Felizmente a FPF percebeu que neste primeiro momento era preferível abdicar dos resultados e aumentar a competitividade. Parece estar a dar frutos porque estamos no EURO Feminino, mas é importante, e é o nosso objectivo – e o que para nós irá balizar este crescimento do futebol feminino –, conseguirmos ser cada vez mais constantes nas presenças em fases finais do Campeonato da Europa. O Campeonato do Mundo é sempre muito difícil, mas poderá igualmente ser possível.

Como vai ser defrontar a Espanha na estreia?

A Espanha é uma equipa fortíssima. Apurou-se com o melhor desempenho dos grupos: mais golos marcados, menos golos sofridos e só vitórias. Gosta de ter a bola, de tirá-la ao adversário, de controlar o jogo e isso vai criar-nos alguns problemas, mas os dois jogos na fase de grupos [derrotas por 4-1 e 2-0] serviram também para as conhecermos melhor.

Segue-se depois a Escócia e a Inglaterra. O que nos pode dizer sobre a dupla britânica e sobre o torneio de 2017?

Francisco Neto lidera Portugal desde 2014
Francisco Neto lidera Portugal desde 2014©FPF

Não serão jogos fáceis. A Escócia vale mais pelo colectivo, pois é não tão forte individualmente, mas até ao fim do jogo não dá um lance por perdido. É uma equipa tipicamente britânica, com um tipo de jogo muito físico.

A Inglaterra foi terceira classificada no último Campeonato do Mundo Feminino! Renovou-se com a entrada do novo seleccionador [Mark Sampson, apresentado em Dezembro de 2013] e é muito forte em todos os sectores.

No geral, penso que vai ser um Campeonato da Europa muito equilibrado e cheio de qualidade. Com tantos títulos, a Alemanha será sempre candidata, mas também Inglaterra, Espanha, França, Suécia e a anfitriã Holanda.