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Análise técnica

 

Análise técnica

"Para ganhar títulos", explicou o seleccionador da Suécia, Calle Barrling, "é necessário ser forte nos dois extremos do campo". Mirel Albon, observador técnico da UEFA na fase final do Europeu do País de Gales, sentiu que as equipas que mais consistentemente atingiram este equilíbrio foram as únicas a chegar à final. "As equipas de topo", explicou, "estão assentes em bases sólidas, tendo sido capazes de encontrar soluções variadas para atacar no último terço e de distribuir as tentativas de golo por várias jogadoras do meio-campo para a frente." Como confirmou a seleccionadora de Inglaterra, Mo Marley: "Tínhamos várias opções para passes longos ou mais curtos, alternativas que são fundamentais para as grandes equipas."

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A guarda-redes de Inglaterra, Elizabeth Durack

O Europeu no Sudoeste do País de Gales foi realizado pouco depois do UEFA Women's EURO 2013 na Suécia e serviu para comprovar que o futebol feminino de Sub-19 subiu de qualidade, estando bem mais próximo do escalão sénior. A capacidade de jogar de forma consistente num ambiente com a intensidade de uma grande competição revelou-se muitas vezes como o factor decisivo numa competição em que a diferença entre as equipas foi bem menor do que os resultados deixam entender. Foi uma competição onde os níveis físicos foram excelentes, com a força mental e a resistência a revelarem-se elementos determinantes.

Jogos psicológicos
A importância dos factores psicológicos veio à tona numa competição que foi, em alguns aspectos, contraditória. Por um lado, os observadores destacaram o alto nível das organizações defensivas e das guarda-redes, mas por outro, a fase final registou um aumento de 54 por cento no número de golos marcados em relação a 2012. Pode-se argumentar que as margens entre as vitórias e as derrotas foram mais reduzidas, mas seis dos 15 jogos foram decididos por três ou mais golos de diferença e a fase de grupos teve duas goleadas de 5-0.

Watch: Mirel Albon, observador técnico da UEFA na fase final

Esta aparente contradição pode estar relacionada com a teoria de que o impacto de um golo é muitas vezes agravado pela onda de choque que provoca. Na maioria dos encontros em que foram marcados vários golos, a equipa derrotada conseguiu equilibrar o jogo durante longos períodos, mas permitiu que o choque de sofrer um golo consentisse oportunidades ao adversário. A Dinamarca perdeu por 3-0 com a Inglaterra, tendo sofrido dois golos em cinco minutos, e frente à França consentiu três em 16. As redes da baliza do País de Gales foram agitadas duas vezes em seis minutos pela Inglaterra e três vezes em 19 pela França. A Suécia sofreu três golos da Noruega em apenas dez minutos, enquanto, no jogo de estreia com a Alemanha, a Noruega foi batida três vezes em nove minutos e sofreu cinco golos em 31, que teriam sido mais se Lina Magull não tivesse desperdiçado uma grande penalidade. "As jogadoras ficaram traumatizadas com a experiência", reconheceu Jarl Torske, o seleccionador da Noruega.

Este fenómeno continuou nas duas meias-finais, onde a Alemanha, depois de ter dominado a primeira metade em Llanelli, sofreu um revés psicológico ao ficar com uma desvantagem de 1-0 no início do segundo tempo e permitiu que a França voltasse a marcar passados apenas dois minutos. A Finlândia, que ficou imperturbável depois se sofrer o primeiro golo nos desafios com a Suécia e Alemanha, parecia manter a serenidade quando a Inglaterra inaugurou o marcador em Carmarthen, mas o segundo golo das britânicas abriu brechas que conduziram ao 3-0 seis minutos depois. Por outras palavras, 22 dos golos marcados no Europeu surgiram como rajadas letais.

"Pode ser um pouco exagerado falar de colapso colectivo", destacou Albon. "Mas este torneio sublinhou a importância que podem ter os factores psicológicos e lembrou-nos que, apesar dos altos níveis técnicos e físicos, não deixa de ser uma competição de um escalão jovem."

Tácticas e filosofias
No País de Gales a táctica mais utilizada foi o 4-3-3. A Alemanha foi a única a recorrer a um claro 4-2-3-1, com a organizadora de jogo Magull e a combativa Rebecca Knaak a proporcionarem equilíbrio nas duas posições mais recuadas do meio-campo. Os expoentes máximos do 4-4-2 foram a Finlândia e a Suécia, embora esta tenha mudado para um 4-1-4-1 no segundo com a Alemanha. Dinamarca, Inglaterra e Noruega jogaram em 4-3-3, com os triângulos do meio-campo a recorrerem a uma ou duas jogadoras de cariz defensivo.

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A inglesa Sherry McCue no encontro com o País de Gales

Na selecção inglesa, o combativa Sherry McCue desempenhou claramente o papel de destruidora de jogo à frente da defesa, permitindo que as duas colegas de sector ajudassem nas tarefas defensivas ou subissem no terreno para apoiar o ataque. A Dinamarca, quando estava em desvantagem no encontro com Inglaterra da fase de grupos que era obrigada a vencer, fez algumas substituições e estava preparada para lançar quatro jogadoras no ataque, embora mantivesse inalterada a estrutura de 4-3-3. A selecção galesa, que esteve ao melhor nível em termos de combatividade e de organização, apostou numa táctica que tanto podia ser catalogada como um 4-4-1-1 ou como um 4-2-3-1, dependendo do momento do jogo.

A França usou a táctica mais difícil de descodificar, tornando-se até dif��cil para os observadores técnicos definir a "formação habitual" para colocar na página da equipa. Gilles Eyquem abriu e fechou o Europeu frente a Inglaterra com duas médios-defensivas, mas usou apenas uma nos embates com a Dinamarca e o País de Gales. A Inglaterra fez menos alterações nas jogadoras, mas exibiu uma grande flexibilidade, com as cinco atacantes (todas preparadas para realizar várias funções) a fazerem permanentemente trocas de posição. O País de Gales foi a selecção mais bem-sucedida entre as que não apostaram numa estrutura rígida.

As filosofias de jogo foram seguidas de forma mais rígida. "O mais animador", explicou a seleccionadora da Finlândia, Marianne Miettinen, depois do empate na estreia com a Suécia, "é que a equipa manteve a sua filosofia de jogo, mesmo quando esteve a perder por 1-0 durante grande parte do encontro." O sueco Barrling comentou: "No ano passado, na Turquia, o clima condicionou as equipas, que optaram por defender mais recuadas por não terem alternativa. No País de Gales assistimos a pressões altas e a jogos com muito maior intensidade. A presença de quatro selecções nórdicas levou a que pudéssemos esperar mais passes directos da defesa para o ataque, mas não foi isso que as equipas fizeram no Europeu. A maioria dos passes longos surgiu como resposta à pressão alta e não como filosofia de jogo." Marley mostrou estar de acordo: "A maioria das equipas tentou criar jogadas a partir da defesa e verificou-se uma evolução de muitas selecções em termos técnicos, de organização colectiva e de conhecimento dos adversários. As equipas já não se limitam a tentar recuperar a bola e lançar contra-ataques."

Entre as semifinalistas, a Alemanha baseou o seu jogo na circulação de bola com excelentes passes curtos; as finlandesas também apostaram nos passes curtos e médios (até serem forçadas a procurar fazer passes a maior distância para contrariar a intensa pressão alta da Inglaterra na meia-final), enquanto a França e a Inglaterra alicerçaram o seu sucesso numa combinação eficaz de passes curtos e longos.

Definir referências
A tendência para um jogo baseado em trocas de passes rápidos levou a que a estatura física deixasse de ser prioritária como critério de selecção. O seleccionador da Dinamarca, Søren Randa-Boldt, afirmou: "Procuramos inteligência futebolística, técnica, velocidade, força mental e jogadoras que adoram este desporto." Na formação das selecções suecas, Barrling prefere "a técnica, o entendimento do jogo, aspectos físicos - especialmente a velocidade - e, obviamente, a personalidade". O treinador do País de Gales, Jarmo Matikainen, procura "jogadoras com um bom primeiro toque, que se sintam confortáveis com a bola, só depois qualidades físicas, principalmente a velocidade e a resistência."

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A alemã Merle Barth e a francesa Clarisse Le Bihan

"O nível das capacidades físicas foi excepcional", destacou Albon, o observador técnico da UEFA. "O facto de os golos serem divididos uniformemente pelos 90 minutos comprova isso. Jogou-se também com grande velocidade e técnica." A alemã Meinert sublinhou: "Privilegiamos a combinação de velocidade e de técnica na equipa. Numa equipa podemos ter uma ou duas jogadoras que não são rápidas, mas quatro ou cinco é impossível. As jogadoras que era habitual ver nestas competições há quatro ou cinco anos são agora uma espécie extinta." Meinert reconheceu que o trabalho defensivo ocupa um lugar cada vez mais importante no planeamento dos treinos. "Na Alemanha temos jogadoras que não necessitam que lhes digam o que têm de fazer no ataque, por isso, a primeira coisa que temos de lhes ensinar à defender e a tomar decisões rápidas."

A evolução da Finlândia nesta fase final pode ser atribuída a um plano de desenvolvimento bem definido. "Utilizámos o Campeonato do Mundo Feminino de 2011 como ponto de partida", explicou Miettinen. "Queríamos definir os requisitos e a descrições das funções de cada posto específico. Depois traçámos as exigências físicas, mentais e técnicas. O grupo que viajou até ao País de Gales foi desenvolvido de acordo com estas orientações ao longo de dois anos. Para dar um exemplo, as nossas jogadoras fizeram uma média de 1983 metros no teste de 'yo-yo' e a nossa selecção sénior presente no Women's EURO 2013 conseguiu uma média de cerca de 2200 metros."

Como observou Matikainen: "É nestas competições que são definidas as referências."

O último terço
O comentário de Barrling sobre "ser forte em ambos os extremos do campo" foi bastante relevante. O treinador viu a Suécia marcar aos quatro minutos do jogo de estreia com a Finlândia, gerindo depois a vantagem. As anfitriãs não conseguiram marcar. Os dois golos da Dinamarca resultaram de jogadas de bola parada. A avalancha goleadora da Noruega frente à Suécia surgiu após 220 minutos em branco e demasiado tarde para evitar a eliminação.

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A alemã Pauline Bremer, de 17 anos, foi a melhor marcadora

Numa competição em que as qualidades defensivas estiveram em destaque, foi a força no outro extremo do campo que determinou o sucesso ou o fracasso. A maioria das equipas usou apenas uma atacante, nomeadamente a Alemanha, que teve Pauline Bremer, de apenas 17 anos, como a melhor marcadora da prova. Foi visível que Meinert teve de recorrer à geração de 1996 para a encontrar, enquanto Eyquem explicou: "As selecções jovens masculinas de França são incentivadas a jogar com dois atacantes, mas no futebol feminino é difícil ter duas avançadas." Das selecções que escolheram jogar com duas atacantes, Barrling foi alternando as duplas, enquanto as finlandesas Juliette Kemppi e Adelina Engman impressionaram pela velocidade, movimentações sem bola e desmarcações para a baliza.

Esta prova também confirmou a tendência do desaparecimento do organizador de jogo clássico, com a alemã Magull a ser a única centrocampista a poder ser colocada nessa categoria. Nos outros casos, como destacou Albon, "verificou-se mais o de cada equipa ter uma líder, em vez de uma organizadora de jogo". Os movimentos atacantes eram iniciados por diversas jogadoras. Na verdade, na meia-final da Inglaterra com a Finlândia, podemos considerar que uma da principais "organizadoras de jogo" foi a defesa-esquerdo Paige Williams. Nos outros casos havia uma série de jogadores capazes de fazer a ligação entre a defesa e o ataque, como a Nº6 francesa, Aminata Diallo".

Velocidade de transição
A selecção inglesa presente no País de Gales foi exemplar nas transições em ambos os sentidos, mas verificou-se uma evolução global nas transições eficientes e em grande velocidade. As oito selecções finalistas estavam preparadas para contra-atacar com rapidez, com a Finlândia (um dos principais expoentes) a efectuar um contra-ataque clássico depois de as norueguesas terem subido no terreno para a marcação de um livre. Uma jogada rápida, com dois passes pelo flanco direito, levou a um cruzamento concluído por Engman com um cabeceamento. A Noruega também conseguiu um contra-ataque eficaz, que permitiu inaugurar o marcador no encontro com a Suécia. A Alemanha criou sempre muito perigo neste tipo de jogadas, em resultado da pressão alta que permitiu recuperar muitas bolas em terrenos adiantados, com o terceiro golo frente à Noruega a resultar de um passe em profundidade após uma bola recuperada no meio-campo adversário. O Europeu provou a necessidade de todas as equipas possuírem o contra-ataque no seu arsenal ofensivo, mas também a necessidade de estarem alertas para a melhor forma de "travar efectivamente o contra-ataque", como a pressão sobre o portador da bola ou a transição em alta velocidade de regresso aos blocos defensivos.

Como foram marcados os golos
O Europeu teve 40 golos, comparativamente aos 26 marcados na Turquia em 2012. A forma como foram conseguidos também sofreu grandes mudanças. Em 2012 a maioria dos golos resultaram de passes na diagonal para dentro da área, mas em 2013 nenhum golo foi marcado desta forma. Desta vez, 35 por cento dos golos em jogadas de bola corrida resultaram de cruzamentos ou passes atrasados, sublinhando a importância dada às penetrações pelos flancos. Paralelamente, os passes em profundidade, que não tinha produzido frutos em 2012 originaram quatro golos, com Alemanha, Finlândia e Noruega a retirarem dividendos desta aposta. Os remates de longa distância foram eficazes por seis vezes, embora isto não implique falta de qualidade das guarda-redes. Albon explica: "As principais selecções perceberam que os adversários apostavam em blocos defensivos compactos e muito recuados, pelo que tiveram de encontrar soluções, como os remates fortes à baliza de zonas menos protegidas da grande área". Os remates de longe renderam mais golos (o de Kadidiatou Diani por França na meia-final com a Alemanha, por exemplo) mas, por uma questão de coerência, a categoria de "longa distância" ficou reservada aos disparos de fora da grande área.

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O golo de Sandie Toletti na final resultou de um canto

Na categoria das jogadas de bola parada, uma das curiosidades é que este Europeu teve exactamente o mesmo número de pontapés de canto que a edição de 2012 (131), ainda que apenas um tenha resultado em golo na Turquia, enquanto quatro foram bem-sucedidos no País de Gales, incluindo o tento da França que inaugurou o marcador no prolongamento da final. Só um golo resultou da marcação de um livre directo (o que deu a vitória à Dinamarca face à desconcentrada defesa galesa). Foram convertidas quatro das sete grandes penalidades assinaladas. "Não houve nada que mereça destaque nas jogadas de bola parada", concluiu Mirel Albon. "Não houve novidades. A maioria dos livres e dos pontapés de canto foram marcados para dentro de uma grande área superlotada. O bom nível de observação e análise dos adversários neste Europeu permitiu eliminar o factor-surpresa."

Tabela de golos marcados
CategoriaAcçãoExplicaçãoGolos
Bola paradaCantosDirecto / na sequência de um canto4
Bola paradaLivres directosDirecto a partir de um livre0
Bola paradaLivres indirectosNa sequência de um livre1
Bola paradaGrandes penalidadesGrande penalidade ou na sequência de um penalty4
Bola paradaLançamentosNa sequência de um lançamento0
JogadaCombinaçõesTabelas / Combinação entre três ou mais jogadoras5
JogadaCruzamentosCruzamento da ala9
JogadaCruzamentos atrasadosPasse atrasado da linha final2
JogadaDiagonaisPasse diagonal para a área0
JogadaDesmarcação com bolaFinta e remate à queima-roupa / Finta e passe2
JogadaRemates de longeRemate directo ou com recarga6
JogadaPasses para o ataquePasse em profundidade ou sobre a defesa4
JogadaErros defensivosMau passe / erro do guarda-redes2
JogadaAutogolosGolo marcado por uma adversária1
  Total40

Em termos de remates à baliza, o quadro confirma que as quartas classificadas de cada grupo foram as selecções menos rematadoras. Como prova de eficiência defensiva, é notável que, em quatro jogos, os adversários da Alemanha tenham conseguido fazer apenas 19 remates, dos quais só oito foram à baliza. Enquanto isso, as campeãs fizeram 81 remates à baliza, permitindo apenas 25 tentativas às adversárias, sete das quais na final que teve prolongamento.

EquipaRematesMédiaÀ balizaMédia
Dinamarca 23 7.67 11 3.67
Inglaterra 61 12.2 27 5.4
Finlândia 38 9.5 14 3.5
França 98 19.6 43 8.6
Alemanha 86 21.5 24 6
Noruega 43 14.33 20 6.67
Suécia NaN NaN 3 1
País de Gales 11 3.67 3 1

Minutos dos golos

MinutosGolos
2013
%
1-15615
16-30512
31-45718
46-60615
61-75615
76-90718
90+12
Prolongamento 91-10512
Prolongamento 106-12013


Marcação de golos por ano
AnoGolosFase a eliminarTotalMédia
2003458533,53
20044412563,73
20054812603,75
2006318392,60
20073411453,00
2008347412,73
20093812503,33
2010525573,80
20113618543,60
2012206261,73
2013319402,67

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