Análise à Supertaça Europeia da UEFA: Paris Saint-Germain e Aston Villa brilham nos duelos individuais
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Sumário do artigo
Roberto Martínez, observador técnico da UEFA, Kris Van Der Haegen, responsável pelo desenvolvimento de treinadores, e Les Howie, mentor das "raizes" do futebol, retiram ilações da excelente forma de jogar em duelos individuais vista na Supertaça Europeia da UEFA.
Conteúdo media do artigo
Corpo do artigo
A Supertaça Europeia da UEFA, realizada esta semana em Salzburgo, demonstrou a importância dos duelos individuais com bola no futebol de elite.
Os momentos decisivos de um duelo atractivo entre Paris Saint-Germain e Aston Villa foram três acções de um-contra-um da mais alta qualidade, todas elas resultando em golo.
No artigo abaixo, a unidade de análise de jogo da UEFA analisa alguns dos melhores exemplos e detalha ao pormenor os aspectos que treinadores e jovens jogadores das "raízes" do futebol devem trabalhar e desenvolver.
Duelos individuais para criar golos
O primeiro vídeo mostra os três golos do jogo, cada um deles envolvendo um lance de um-contra-um. O belo golo de Khvicha Kvaratskhelia surgiu após este driblar Matty Cash, aproveitando uma pausa momentânea do lateral quando temporizava para esperar a chegada de Boubacar Kamara para apoiar.
"No momento em que ele percebe que não está sob pressão de Cash, que está à espera que Kamara chegue para o apoiar, parte para cima do defesa", diz Roberto Martínez, descrevendo isto como "um um-contra-um intuitivo", onde o avançado age após observar a movimentação do defesa.
O golo do empate do Aston Villa, apontado por Brian Madjo, surgiu após um lance de um-contra-um no flanco, com John McGinn a tirar rapidamente a bola do raio de acção de Nuno Mendes antes de cruzar para a área, algo que fez várias vezes desde a direita.
Finalmente, o golo da vitória, apontado por Desiré Doué, que como observou Martínez, foi um um-contra-um mas diante do guarda-redes. O timing e a forma como o jogador se posiciona para atacar a baliza merecem destaque, assim como a finalização precisa.
"A questão aqui é: com que rapidez o jogador se consegue posicionar para rematar em boa posição como o menor número de toques na bola possível?", acrescenta Martínez. "Quanto mais rápido o fizer, menor será a hipótese do defesa criar uma situação de dois-contra-um".
Definir o um-contra-um
"O um-contra-um é o lance em que avançado e defesa se enfrentam directamente, sendo o desfecho do momento determinado principalmente pelas suas acções individuais", diz Martínez. "O um-contra-um 'técnico' acontece quando se dá pelo menos um toque na bola para abordar o defensor e tentar tirá-lo da jogada".
Em termos de treino, divide o um-contra-um em quatro tipos. "Para trabalhar o um-contra-um nos treinos", explica, "é importante saber que existem quatro tipos e que cada um gem as suas especificidades, como posição inicial, qualidade técnica com bola e a tomada de decisão".
Quatro tipos de um-contra-um
• De costas para a baliza – recepção com pressão directa por trás.
• Condução na diagonal – recepção e condução da bola pelo relvado para outra zona.
• De frente para a baliza – condução da bola de frente para o adversário.
• Pela lateral – situações de cruzamento, bem como posições para finalizar e assistir.
Como os jogadores de elite fazem
O segundo vídeo mostra diversas jogadas de um-contra-um que se enquadram nas duas primeiras categorias: recepção de costas para a baliza ou em posição para fazer uma diagonal.
Para Les Howie, mentor de "raízes" do futebol da UEFA, os treinadores que virem estes vídeos devem considerar acima de tudo a movimentação e a perceção de espaço dos jogadores.
Sobre estes vídeos, continua: "Vejam como os jogadores demonstram paciência, mantendo a posse de bola e movimentando-a para criar espaço. Depois, quando o espaço o permite, há uma mudança de ritmo para o explorar e avançar em direcção à baliza. Assim, nos treinos, pensem em exercícios que incentivem a posse de bola com prática direccional que estimule a tomada de decisões por parte dos jogadores".
"A prática é importante não só nos treinos colectivos mas também nos individuais ou em jogos com amigos, e também importa praticar usando os dois pés e diferentes partes do pé, como por exemplo chutando a bola contra uma parede".
Les Howie, mentor das "raizes" do futebol da UEFA
O último vídeo apresenta exemplos de acções de um-contra-um que se enquadram nas duas últimas categorias: confronto directo com um defesa e lances pelas alas.
Os dois lances de Kvaratskhelia mereceram elogios de Martínez, sobretudo pela capacidade do georgiano para temporizar o lance após entrae na área. "Muitos jogadores ficam nervosos após entrar na área e precipitam-se, mas os melhores, os craques de topo, sabem o que fazer, como fazer e quando fazer", explica.
Martínez também elogiou Alysson, suplente-utilizado do Aston Villa, pela combinação de velocidade e técnica, e o capitão McGinn, pela qualidade técnica exibida no movimento em que engana o marcador directo antes de cruzar para Madjo com o pé direito, supostamente o seu mais fraco. "Há muitas formas de tirar o adversário da jogada, seja através de velocidade, posicionamento, contacto físico, mas neste caso tratou-se de algo técnico, usando a qualidade da sua técnica, e depois o cruzamento é fantástico", diz.
No campo de treinos
Para Martínez, a capacidade no um-contra-um, seja ofensiva ou defensiva, é uma parte crucial do repertório de um jovem jogador. Sugere, por isso, que os treinadores considerem formas de incorporar exercícios de um-contra-um em todas as partes de um treino. "Qualquer que seja a sessão, pode ajustá-la e garantir que cada exercício começa com um exercício de um-contra-um, e isso pode ser logo desde o aquecimento", diz.
O gráfico acima oferece um exemplo de um exercício de passe que tem a componente de um-contra-um adicionado no final.
Como funciona a parte do um-contra-um
• Configure o exercísio para que existam quatro alvos identificáveis.
• A posição inicial pode variar: zona central ou zona mais lateralizada.
• Tipos de um-contra-um; jogadores 1 a 3 podem intervir.
• O tipo pode um jogador em posição específica.
• Após a acção, todos rodam para a posição seguinte.
A título de exemplo, Martínez explica que uma acção do tipo um seria aplicável quando se trabalha com um avançado-centro: "Se o jogador for avançado, pode-se orientá-lo para 'sentir' o defesa e marcar numa baliza imaginária à sua frente, com o objectivo de simular o jogo associativo.
"Entretanto, o defesa pode trabalhar o seu posicionamento corporal, decisões e acções defensivas”, acrescenta, "embora o exercício também permita ao treinador assumir a posição defensiva.
"A acção de um-contra-um é adaptada às qualidades ou ao perfil do jogador, para que este possa trabalhar uma acção específica do jogo e o treinador possa auxiliar no aperfeiçoamento do processo de forma muito próxima.
Reflexões sobre o treino
Kris Van Der Haegen, responsável pelo desenvolvimento de treinadores da UEFA, e Les Howie, mentor de jovens jogadores da UEFA, discutem o desenvolvimento de competências de um contra um em jogadores jovens.
Kris Van Der Haegen, responsável pelo desenvolvimento de treinadores da UEFAt:
"Os treinadores devem estar cientes da importância de dar aos jogadores a oportunidade de serem criativos e não se concentrarem na repetição de um gesto técnica em circunstâncias perfeitas, porque durante os jogos as circunstâncias geralmente não são ideais ou perfeitas.
"Outra consideração importante são as competências no um-contra-um defensivo, já que o o treino de duelos individuais nessas zonas do terreno é crucial tanto para jogadores ofensivos como defensivos. É realmente necessário treinar os cruzamentos com os defesas, para que estes também se possam desenvolver".
Les Howie, mentor das "raizes" do futebol da UEFA:
"Para os jogadores mais jovens, é sempre importante tentar manter a cabeça erguida durante o um-contra-um, para que tenham noção do que se passa à sua volta e pratiquem a movimentação com bola, o drible e o domínio de bola. Nos treinos isto deve significar muitos jogos em campo reduzido para trabalhar a técnica.
"No futebol infantil, nos últimos 20 anos, houve uma grande mudança neste sentido, com mais jogos com um menor número de jogadores, como três-contra-três ou cinco-contra-cinco. São muito importantes para que os jogadores se habituem a lidar com espaços reduzidos e marcações apertadas, praticando situações de um-contra-um para desenvolver a movimentação, tomada de decisões e compreensão do jogo".
Aspectos cruciais no um-contra-um
• Adoptar uma abordagem positiva.
• Boa força e equilíbrio.
• Manter a cabeça erguida para ver espaços a explorar.
• Capacidade de controlar a bola com ambos os pés e com diferentes partes dos pés.
• Movimentação ou drible a alta velocidade.