De volta a 1984: "Europa vestida de azul"

Trinta anos depois de a França ter conquistado pela primeira vez o Europeu, o UEFA.com recorda um torneio que "ditou um resultado esperado por toda uma nação".

De volta a 1984: "Europa vestida de azul"
©UEFA.com

O panorama visual e sonoro de milhares de homens, mulheres e crianças a encherem os Campos Elíseos após o apito final foi uma imagem da cor, paixão e alegria que o Campeonato da Europa de 1984 proporcionou.

"L' Europe en habit bleu" – "a Europa vestida de azul" – foi a manchete do diário desportivo L'Équipe de 12 de Julho de 1984, no dia de abertura do segundo EURO da França como anfitriã. "O EURO '84 arranca esta noite no nosso país", podia ler-se na primeira página. "Os 'bleus', após uma excelente fase de preparação, são os favoritos no papel, mas não terão margem para errar frente à Dinamarca." Duas semanas depois, as esperanças gaulesas materializaram-se.

O Campeonato da Europa da UEFA foi uma criação do francês Henri Delaunay, na altura secretário-geral da Federação Francesa de Futebol (FFF). Por isso, foi apropriado que o troféu com o seu nome tivesse sido erguido pelos seus compatriotas naquela amena noite de quarta-feira na capital do país. Foi ainda mais apropriado que o primeiro homem a levantá-lo aos céus tenha sido o seu capitão Michel Platini, um virtuoso e um verdadeiro talismã durante todo o certame.

Aquele que viria a ser o Presidente da UEFA abrira a contagem perto do final da partida, com o golo que deu a vitória por 1-0 frente à Dinamarca. No entanto, seria apenas uma espécie de aperitivo. Platini conseguiria "hat-tricks" frente à Bélgica (5-0) e Jugoslávia (3-2), para assegurar o apuramento dos seus para as meias-finais, plenos de confiança.

As expectativas eram cada vez maiores. "Tínhamos que vencer, éramos os favoritos e a França esperava que esta selecção francesa de futebol fosse a primeira a ganhar uma grande competição internacional", recorda o médio Luis Fernandez, parte do "Le Carré Magique" - "O Quadrado Mágico" – juntamente com Platini, Alain Giresse e Jean Tigana. "Um dos grandes méritos de Michel Hidalgo foi descobrir uma forma de encaixar tantos números 10 no meio-campo", disse Platini.

Golo decisivo de Michel Platini frente a Portugal
Golo decisivo de Michel Platini frente a Portugal©AFP

Comparativamente ao que se passou na meia-final, o jogo decisivo frente à Espanha foi mais fácil, com golos do inevitável Platini e Bruno Bellone a assegurarem um triunfo por 2-0 perante o Presidente de França, François Mitterrand. "Sentimos o espírito desta equipa", disse Mitterrand após o encontro no Parc des Princes.

O livre directo de Platini na final fez com que a sua contagem pessoal na fase final subisse para nove tentos, um recorde que persiste até hoje. Quando lhe entregaram o troféu destinado ao melhor marcador, prometeu oferecer uma réplica a cada companheiro de equipa. "A selecção de França surpreendeu-me nos momentos mais difíceis", disse o então médio da Juventus. "Fomos mentalmente fortes e esta equipa não é apenas um ou vários jogadores. São 20."

Grandes favoritos desde o início e ainda mais durante a maior parte da fase final, a França nunca quis desafiar o destino. "Não há absolutamente nada planeado [quanto a festejos]", disse Hidalgo após a final. "Juntaremos os jogadores, esposas e famílias para um jantar simples na sede da FFF. Após isso, todos irão para casa ou para uma discoteca."

Os festejos da capital e do país foram um improviso ainda maior. Os que se reuniram no centro de Paris surgiram enrolados em "tricolores" (a bandeira nacional), outros somente felizes, sem quaisquer enfeites devido ao calor, mas que cantavam. "On a gagné!" – "Ganhámos!". O L'Équipe foi igualmente sucinto no dia seguinte. "Ils l'ont fait" – "Eles conseguiram" – era a manchete. "O EURO '84 proporcionou o resultado de que toda a gente estava à espera", podia ler-se nas linhas da primeira página. "Os 'bleus' mereceram a sua coroa."

Dois dias depois, a 29 de Julho, o "Tour de France" (a Volta A França em bicicleta) estava prestes a começar no subúrbio parisiense de Montreuil. Mas, naquelas duas semanas ou naquela noite inesquecível, raras eram as camisolas amarelas que se viam. Tal como o L'Équipe previra, a Europa estava vestida de azul.

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