Relatório técnico da Champions League II: Construir a partir de trás

Neste segundo extracto do relatório técnico da UEFA Champions League 2015/16 o painel de especialistas explica como as melhores equipas recorreram aos defesas e guarda-redes para iniciar os seus ataques.

Manuel Neuer iniciou muitos dos ataques do Bayern
Manuel Neuer iniciou muitos dos ataques do Bayern ©Getty Images

"Todas as equipas que vi", disse David Moyes na manhã após a final, "tentaram construir a partir de trás. Talvez a excepção tenha sido o Manchester City, que se cingiu menos vezes a isso, porque quando os vi eram raras as ocasiões em que saíam a jogar com a bola nos seus defesas centrais."

Existem alguns dados estatísticos que confirmam esta opinião. Os defesas-centrais do City deram atenção, sobretudo, à disciplina posicional e, por exemplo, dos 35 passes efectuados com sucesso por Eliaquim Mangala, que substituiu Vincent Kompany aos sete minutos da recepção ao Dynamo Kyiv, quatro foram para o seu guarda-redes e 27 para outros colegas do quarteto defensivo do City.

Resumo: Dínamo Kiev - Man City
Resumo: Dínamo Kiev - Man City

Kompany, na primeira mão, tinha direccionado 21 dos seus 59 passes para o seu médio-defensivo ou para outros colegas do meio-campo para a frente. Quando o mesmo cenário foi repetido nos minutos iniciais da segunda mão das meias-finais, em Madrid, 23 dos 30 passes de Mangala foram para o guarda-redes ou para defesas.

Os maiores riscos na distribuição, com passes mais para a frente, ficaram a cargo de Nicolás Otamendi, mas ainda assim, na recepção ao Real Madrid, 70 por cento dos passes dos defesas-centrais do City foram para outros colegas do sector mais recuado. O início da construção dos ataques coube aos laterais e aos médios-defensivos. E ao guarda-redes. Em Madrid, Joe Hart fez passes para todos os seus dez colegas de campo, ainda que 37 por cento dos seus passes longos não tenham encontrado o destino certo.

Guarda-redes alemães como referência
Uma vez mais, os dois guarda-redes alemães de ambas as equipas que mais posse de bola tiveram – Marc-André ter Stegen e Manuel Neuer – foram a referência no que toca a participar na construção ofensiva e na precisão da sua distribuição de bolas.

Resumo: Barcelona - Arsenal
Resumo: Barcelona - Arsenal

Durante o embate dos oitavos-de-final com o Arsenal, Ter Stegen, do Barcelona, só em três dos 67 passes que efectuou não conseguiu encontrar um colega – e todos esses três passes foram passes de mais de 30 metros. No confronto dos quartos-de-final entre Barça e Atlético Madrid os dois guarda-redes serviram na perfeição para ilustrar os contrastantes planos de jogo e filosofias das equipas.

Em Camp Nou, Ter Stegen não esteve muito em acção, mas só um passe longo dos 18 passes que efectuou não encontrou o destino desejado. No Vicente Calderón, o guardião alemão fez 37 passes (mais do que Neymar, Luis Suárez ou Ivan Rakitić), 13 dos quais longos. E chegaram todos a um colega.

Do outro lado, o plano de jogo de Diego Simeone exigia que Jan Oblak, para fugir à pressão alta do Barça, jogasse longo na distribuição da bola. Em Camp Nou, 30 dos seus 31 passes foram longos, com metade deles a chegarem até um colega. Na segunda mão, todos os seus 18 passes foram longos, com uma taxa de sucesso de 44 por cento, em comparação com os 100 por cento de eficácia de Ter Stegen no passe nesse jogo. No conjunto das duas mãos, 12 dos 23 passes longos acertados por Oblak foram recebidos por Saúl Ñíguez, com seis a chegarem aos homens da frente: três a Antoine Griezmann e outros três a Fernando Torres.

Resumo: Wolfsburgo - Real Madrid
Resumo: Wolfsburgo - Real Madrid

O guarda-redes do Wolfsburgo, Diego Benaglio, também optou sobretudo pela distribuição longa no embate com o Real Madrid, com 40 por cento dos seus 57 passes longos a chegarem a um colega. Outros guardiões tiveram taxas de êxito igualmente baixas: Thibaut Courtois acertou apenas sete dos 18 passes longos quando o Chelsea visitou Paris e Petr Čech, do Arsenal, acertou nove dos 16 na recepção ao Barcelona.

Embora o observador técnico Ioan Lupescu tenha sublinhado a "típica filosofia holandesa" do jogo do PSV Eindhoven, "com uma construção de jogo paciente a partir de trás e do meio-campo" quando viu os holandeses jogarem em casa, na segunda mão, fora, contra o Atlético de Madrid, o guarda-redes Jeroen Zoet recorreu ao passe longo em 42 ocasiões – com 12 dos 22 passes que foram bem-sucedidos a terem como destino o ponta-de-lança Luuk de Jong.

Durante a meia-final contra o Atlético, Neuer distribuiu com êxito passes a nove dos seus dez colegas de campo em Madrid e a sete em Munique, na segunda mão, tendo aí os visitantes conseguido evitar que o guarda-redes germânico colocasse bolas longas em Franck Ribéry, Douglas Costa e Kingsley Coman.

Um terceiro guardião alemão, Kevin Trapp, do Paris, também mostrou grande precisão no passe longo – destacando-se a sua capacidade de colocar a bola em Zlatan Ibrahimović para dar início a contra-ataques directos.

As opções de passe do Real Madrid
"Um dos aspectos que me surpreendeu," reflectiu Thomas Schaaf após a final, "foi ver Keylor Navas jogar longo de forma tão frequente. Poderá ter sido uma tentativa deliberada de evitar a pressão alta do Atlético, mas obrigou a sua equipa a trabalhar muito para ganhar a bola."

Como o Real Madrid ganhou a final
Como o Real Madrid ganhou a final

Nos quatro jogos anteriores, contra Wolfsburgo e Manchester City, o guarda-redes costa-riquenho não tinha, no total, feito mais do que 25 passes longos – uma média de cerca de seis por jogo – com 15 desses passes a chegarem com êxito a um colega Em San Siro, na final, 24 dos 31 passes que efectuou durante o jogo foram longos, com metade serem captados por um jogador do Real Madrid Em Milão, o início da construção de jogo do Real Madrid a partir de trás teve por base, sobretudo, os passes do central Sergio Ramos para Marcelo e Toni Kroos.

O lateral-esquerdo Marcelo foi quem mais passes fez para Cristiano Ronaldo e Gareth Bale, enquanto Kroos distribuiu bolas para todos os seus colegas de campo. Pepe, o outro defesa-central, mostrou-se mais conservador, passando sobretudo para Navas, Ramos e para o médio-defensivo, Casemiro.

A maior parte dos passes destinados a Luka Modrić vieram dos laterais-direitos, Dani Carvajal e, depois, Danilo. O trabalho de construção do Atlético, por seu lado, foi canalizado sobretudo na direcção dos médios-centro, Koke e Gabi, que entre si estiveram totalizaram 35 por cento dos passes da equipa, confirmando a crescente importância dos médios-defensivos como "organizadores de jogo" no futebol moderno.

Porém, o bloco defensivo de Zinédine Zidane conseguiu controlar os passes ofensivos dos dois centro-campistas adversários. Embora o duo tenha conseguido combinar 27 vezes com Griezmann, só por quatro vezes conseguiram colocar a bola em Torres, que recebeu apenas 11 passes durante as duas horas de jogo. A terminar, Schaaf destacou o meio-campo do Real Madrid como a chave para o domínio evidenciado na primeira parte.

"Casemiro esteve muito eficaz no papel de médio de contenção," comentou, "e penso que Kroos e Modrić trabalharam muito bem em conjunto no que diz respeito à posse de bola e à realização de passes para os seus rápidos colegas da frente."

Este artigo faz parte do relatório técnico da UEFA Champions League para 2015/16: faça o download agora (em inglês)

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