O dia em que Sporting e Partizan entraram para a história

A 4 de Setembro de 1955, Sporting e Partizan deram início à era das competições europeias de clubes, ocasião para o UEFA.com recordar o épico 3-3 num jogo histórico varrido pelo vento.

Reportagem do jornal Sporting sobre o primeiro jogo da Taça dos Campeões
Reportagem do jornal Sporting sobre o primeiro jogo da Taça dos Campeões ©Sporting CP

Os ventos da mudança varreram o futebol quando, a 4 de Setembro de 1955, se fez história por ocasião do primeiro jogo de sempre das competições de clubes da UEFA. Há 60 anos, Sporting CP e FK Partizan defrontaram-se em Oeiras, nos arredores de Lisboa, e tornaram-se nos pioneiros da novel Taça dos Clubes Campeões Europeus, numa partida marcada por ventos em sentido bem mais literal.

A participação das equipas na edição inaugural da prova, precursora da UEFA Champions League, foi feita por convite e o debutar aconteceu numa tarde solarenga de domingo. Com o Estádio José Alvalade ainda em construção (seria inaugurado cerca de nove meses depois, a 10 de Junho de 1956), o Sporting recebeu o ilustre adversário da Jugoslávia na “sala de visitas do futebol lusitano”, o Estádio Nacional. Situado no vale do Jamor, o local, para quem conhece, é dado a ventaneira – e os elementos haveriam de adicionar àquele dia alguma dose de imprevisibilidade ao que já de si era um passo para o desconhecido.

Tanto a equipa da casa como a forasteira tiveram de enfrentar o vento adverso. Escolhidos para estrear a competição, apesar de terem terminado o campeonato anterior no terceiro lugar, os “leões”, contudo, tinham sido a força dominante em Portugal. Sete títulos conquistados em oito temporadas entre 1947 e 1954 – incluindo quatro seguidos a partir de 1950/51, situação inédita no país – atestavam bem o facto, em grande parte graças aos feitos notáveis dessa lendária linha avançada que ficou conhecida como “Os Cinco Violinos”.

Desse quinteto, do qual faziam parte Fernando Peyroteo, Jesus Correia, Albano Pereira, Manuel Vasques e José Travassos, os dois últimos ainda estavam no clube, mas o Sporting defrontou o Partizan ainda sem qualquer jogo oficial realizado na época de 1955/56. Pelo contrário, os jugoslavos (quintos classificados na época nacional anterior) tinham já começado o respectivo campeonato e possuíam na equipa vários internacionais experientes – muitos deles medalhados de prata no torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Helsínquia, em 1952, e também participantes no Mundial de 1954.

Final Taça UEFA 2005: Sporting 1-3 CSKA
Final Taça UEFA 2005: Sporting 1-3 CSKA

Milhares de “sportinguistas” partiram então em romaria até ao Jamor para ver os insignes convidados, nomes como Branko Zebec, Bruno Belin, Stjepan Bobek e Miloš Milutinović, enquanto o “cérebro” Zlatko Čajkovski esteve ausente devido a compromissos estudantis. E logo após o apito inicial do desafio o Partizan esteve perto de inaugurar o marcador.

Bobek apareceu sozinho frente ao guarda-redes do Sporting, Carlos Gomes, mas o remate saiu por alto. O avançado jugoslavo desperdiçou assim a honra de ter sido o primeiro marcador numa competição de clubes da UEFA, ao contrário de João Martins. Aos 14 minutos, Vasques ganhou o duelo com Zebec, a bola sobrou para João Martins e o remate do dianteiro dos “leões” fez a equipa de Alejandro Scopelli adiantar-se na contenda. O revés revelou-se ainda pior para o Partizan: Zebec lesionou-se no joelho esquerdo na jogada e, num tempo em que não eram ainda permitidas substituições, pouco mais fez do que ser espectador virtual privilegiado da partida no relvado.

“Foi azar que Zebec se tivesse magoado, pois do lance resultou o primeiro golo que sofremos e esses dois factos juntos enervaram-nos”, afirmou depois do encontro o dianteiro do Partizan, Prvoslav Mihajlović. O treinador Aleksandar Tomašević teve de agir rapidamente e mudou Zebec para o flanco esquerdo, onde incomodava menos, ao passo que Belin trocou a posição de lateral-direito pelo centro de defesa e Anton Herceg mudou de extremo esquerdo para o oposto.

Stjepan Bobek marcou pelo Partizan
Stjepan Bobek marcou pelo Partizan©FK Partizan

E as mudanças resultaram, uma vez que não apenas Milutinović igualou a peleja, em cima do intervalo, como também pôs os visitantes no comando pouco depois do reatamento. “O segundo golo que sofremos nasceu duma grande infelicidade minha”, lamentou o capitão do Sporting, Manuel Passos, queixando-se das condições atmosféricas. “A bola, tocada pelo vento, enganou-me passando ao lado do corpo.”

Mas a partida estava longe de terminar e os “leões” empataram através do avançado Quim, jovem avançado de 19 anos a debutar oficialmente pelo clube. Bobek voltou a dar vantagem aos “alvi-negros” a 17 minutos do fim, só que a derradeira palavra, numa segunda parte frenética em termos de incerteza, teve-a o anfitrião: Martins aproveitou da melhor maneira um excelente passe de Quim por entre a defesa contrária e fixou o resultado em 3-3.

“O futebol praticado foi prejudicado pela forte ventania que se fez sentir”, salientou Travassos, embora tivesse sido lesto a admitir a “categoria” dos comandados de Tomašević. “O Partizan é uma das melhores equipas que têm vindo até cá”, acrescentou Passos, enquanto ambos os lados sentiram que deviam ter saído vitoriosos – provando que certas coisas nunca mudam.

O Real Madrid venceu a edição inaugural em 1955/56
O Real Madrid venceu a edição inaugural em 1955/56©AFP

“Em Belgrado devemos ganhar bem”, garantiu Bobek. E, infelizmente para o Sporting, não se enganou e quatro golos de Milutinović ajudaram o Partizan a vencer a segunda mão, por 5-2, passadas cerca de cinco semanas, a 12 de Outubro. O Sporting ficou pelo caminho e o triunfo levou o visitante a defrontar o Real Madrid, mais tarde vencedor do torneio e apurado apesar de derrotado na Jugoslávia, por 3-0, pois ganhara por quatro golos sem resposta na capital espanhola.

A competição arrancou de vento em poupa com as duas equipas pioneiras a ensaiarem um pouco do que estava para vir. Embora a principal prova de clubes da Europa tenha evoluído muito desde então, tanto o Sporting como o Partizan sabiam que tinham acabado de participar em algo especial. Pouco depois do encontro, reuniram-se à noite num jantar no restaurante Pôr-do-Sol, na Feira Popular, em Lisboa, tendo ainda uma delegação visitado a sede dos "verde-e-brancos" no nº86 da Rua do Passadiço. Para os jogadores, terminara somente mais um dia épico de trabalho mas, para a Taça dos Campeões, o sol estava apenas a começar a nascer.

João Martins, autor do primeiro golo da prova, salta entre a defesa do Partizan
João Martins, autor do primeiro golo da prova, salta entre a defesa do Partizan©Sporting CP

Sporting 3-3 Partizan (Martins 14, 78, Quim 65; Milutinović 45, 50, Bobek 73)

Estádio Nacional, Oeiras, Lisboa
4 de Setembro de 1955
17h00

Sporting: Carlos Gomes, Manuel Caldeira, João Galaz, Armando Barros, Manuel Passos (cap), Juca, Hugo Sarmento, Manuel Vasques, João Martins, José Travassos, Quim.

Partizan: Slavko Stojanović; Bruno Belin, Čedomir Lazarević, Ranko Borozan, Branko Zebec, Božidar Pajević, Prvoslav Mihajlović, Miloš Milutinović, Marko Valok, Stjepan Bobek (cap), Anton Herceg.

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