Charlton e Eusébio: Dois génios em Wembley

A Champions Matchday recorda a inesquecível final da Taça dos Campeões de 1968, em Wembley, na qual brilharam dois jogadores lendários: Bobby Charlton e Eusébio.

Bobby Charlton e os colegas do Manchester United comemoram o triunfo na final de 1968
Bobby Charlton e os colegas do Manchester United comemoram o triunfo na final de 1968 ©Hulton Archive

Bobby Charlton e Eusébio foram, sem dúvida, dois dos melhores jogadores de futebol da sua geração. Ambos venceram a eleição para Jogador Europeu do Ano, ambos serviram um clube com distinção e, para além do talento extraordinário, ambos foram embaixadores naturais do futebol com propensão para marcarem golos espectaculares.

Vieram de origens humildes. Charlton era filho de um mineiro de Ashington, mas assinou pelo Manchester United FC aos 15 anos, enquanto o pai angolano de Eusébio era ferroviário e morreu quando ele tinha apenas oito anos. Eusébio foi criado pela mãe em Moçambique e descoberto quando alguém falou do prodígio de Maputo de 18 anos a Béla Guttmann, treinador do Benfica, num barbeiro de Lisboa, em 1960.

Charlton e Eusébio cruzaram-se várias vezes ao longo da carreira. Tudo começou num encontro entre Portugal e Inglaterra em Wembley, em 1961, na qualificação para o Campeonato do Mundo da FIFA em que ambos marcaram no amigável realizado em Lisboa em 1964.

Confrontaram-se nos quartos-de-final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1966, quando o United levou a melhor sobre o Benfica por 8-3 no total, no qual Charlton marcou no sensacional triunfo por 5-1 em Lisboa. Os dois atacantes voltaram a reencontrar-se nesse Verão e apontaram todos os golos do jogo das meias-finais do Campeonato do Mundo, ganho pelos ingleses por 2-1.

Eusébio remata à baliza do United em 1968
Eusébio remata à baliza do United em 1968©Getty Images

No entanto, para Charlton, tudo isso parecia insignificante quando os dois emblemas mediram forças na final da Taça dos Campeões de 1968, em Wembley. A data era fortemente simbólica: dez anos antes, o avião que transportava o United de regresso a casa, após o jogo dos quartos-de-final com o FK Crvena Zvezda, em Belgrado, despenhou-se no aeroporto de Munique-Riem, matando oito jogadores. Charlton e o treinador Matt Busby estavam entre os sobreviventes. Busby reconstruiu a equipa do United em redor de Charlton e continuou com a obsessão de conquistar títulos europeus.

O sonho de Busby concretizou-se em 1968, altura em que o United venceu a final por 4-1, mas tudo poderia ter sido bem diferente. Com o resultado empatado 1-1 aos 86 minutos, Charlton perdeu a bola, Eusébio escapou à marcação de Nobby Stiles e recebeu um passe em profundidade de António Simões antes de avançar em direcção à baliza de Alex Stepney.

Quando o United e o Benfica disputaram um jogo particular em Los Angeles, em 1967, acontecera jogada semelhante e Stepney pensou que Eusébio iria rematar forte, como tinha feito na Califórnia. O guarda-redes do United esperou e segurou o potente pontapé. Depois, num dos momentos marcantes da história do futebol europeu, Eusébio aplaudiu a defesa. "Era um homem assim", recordou Stepney mais tarde.

Eusébio comentou com a modéstia habitual: "Aplaudi o Stepney porque foi uma grande defesa. Sempre acreditei no 'fair play', dentro e fora de campo. Ele fez uma excelente defesa e eu aplaudi-o. Foi apenas isso que aconteceu."

Matt Busby prepara os jogadores do United para o prolongamento
Matt Busby prepara os jogadores do United para o prolongamento©Getty Images

O Benfica sofreu três golos no prolongamento e o United sagrou-se campeão europeu. Charlton pensou nos colegas desaparecidos e chorou, enquanto na instalação sonora de Wembley se escutava a música "Congratulations", de Cliff Richard.

O United voltou ao Hotal Russell, em Londres, e Busby cantou "What a Wonderful World" na festa que se seguiu. Emocional e fisicamente exausto, e porque tinha de se apresentar na selecção na manhã seguinte, Charlton bebeu uma chávena de chá no quarto, incentivou a mulher, Norma, a participar nos festejos e foi dormir.

Depois de terminarem a carreira, os dois jogadores assumiram o papel de embaixadores dos respectivos clubes e selecções, tendo-se tornado bons amigos. Quando Eusébio faleceu em Janeiro de 2014, Portugal declarou três dias de luto nacional. "Eusébio foi um dos melhores jogadores que tive o privilégio de defrontar. Sinto orgulho por ter sido seu adversário e amigo", afirmou Charlton em jeito de homenagem.

A Champions Matchday é a revista oficial da UEFA Champions League e está disponível em toda a Europa em versão papel e também para ser descarregada gratuitamente em formato digital. Também pode acompanhar a revista através do Twitter, em @ChampionsMag.

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