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In the Zone, final da Champions League: Análise do Liverpool 0-1 Real Madrid

O painel de Observadores Técnicos da UEFA analisa a vitória do Real Madrid sobre o Liverpool na final de Paris.

In the Zone: A ameaça de Vinícius Júnior

O 14º triunfo do Real Madrid na Taça dos Campeões assentou num golo solitário de Vinícius Júnior e numa exibição magnífica do seu guarda-redes Thibaut Courtois.

Neste artigo levado até si pela FedEx, o painel de Observadores Técnicos da UEFA reflecte sobre os pontos-chave para a magra vitória do Real sobre o Liverpool numa final que deu ao treinador Carlo Ancelotti a quarta vitória na competição, registo recorde.

Como foi a final


Golo

0-1: Vinícius Júnior (59)

Veja o golo da vitória marcao por Vinícius Júnior

A finalização de Vinícius Júnior, ao segundo poste, rendeu-lhe um lugar na história – e também justificou as conversas antes do jogo sobre o significado do seu duelo com Trent Alexander-Arnold. No entanto, o painel de observadores destacou primeiro as principais acções na construção, começando com a contribuição de Luka Modrić. Pressionado por Andrew Robertson na posição de lateral-direito, o veterano croata do Real Madrid fez um excelente passe rasteiro entre dois jogadores do Liverpool para Dani Carvajal que, por sua vez, passou a bola para Casemiro.

O internacional brasileiro lançou então Fede Valverde, em corrida pela direita, para o espaço deixado vago por Robertson. Quando Valverde entrou na área fez um passe tenso cruzado e rasteiro para o poste mais distante. Com Ibrahima Konaté acompanhando Karim Benzema ao primeiro poste, Alexander-Arnold, algo atrasado na recuperação, não viu a movimentação de Vinícius nas suas costas e o jovem avançado brasileiro do Real Madrid tocou a bola para o fundo das redes já dentro da pequena área.

Roberto Martínez, seleccionador da Bélgica e observador de jogos da UEFA, elogiou a eficácia de uma equipa do Real Madrid que fez apenas dois remates à baliza na final – o primeiro num golo anulado a Benzema pouco antes do intervalo por posição de fora-de-jogo e o segundo no tento que deu a vitória. "Eles sabiam que iriam estar sob pressão durante longos períodos, mas nunca perderam aquele instinto matador que faz com que precisem apenas de uma oportunidade para marcar um golo."

Melhor em Campo: Thibaut Courtois

Melhor em Campo: Thibaut Courtois

O belga chegou à final tendo feito o maior número de defesas (50) entre todos os guarda-redes entre Setembro e Maio. Fez mais nove contra o Liverpool, as cinco primeiras num período de cinco minutos a partir dos 16 e que culminou com um desvio para o poste a um remate perigoso rasteiro de Sadio Mané – um momento-chave da resistência inicial do Real Madrid, de acordo com o painel de observadores da UEFA, que lhe atribuiu "defesas cruciais em momentos críticos da primeira parte, quando o Liverpool estava por cima do jogo".

Mas Courtois guardou o melhor para o final, ao defender de forma fantástica um remate de Mohamed Salah, aos 83 minutos, esticando instintivamente o braço direito para desviar a bola, impendindo-a de entrar na sua baliza. David James, antigo guarda-redes do Liverpool e membro do grupo de observadores, afirmou: "Se ele não tivesse feito essas duas defesas incríveis, o Liverpool venceria o jogo e estaríamos a ter aqui uma discussão completamente diferente."

Tácticas das equipas

Liverpool

O Liverpool apresentou-se num 4-3-3 , com o médio Thiago Alcántara (nº6) a recuperar a tempo de um problema no tendão de Aquiles. Na defesa, Konaté (nº5) foi o escolhido para fazer companhia a Virgil van Dijk (nº4) no centro e – como pode ser visto no vídeo acima – a sua velocidade ajudou a dar cobertura à direita do Liverpool, enquanto o Ream Madrid procurava, com passes longos, o espaço que havia atrás do Alexander- Arnold (nº66), a jogar sempre muito em terrenos adiantados.

Quando o Liverpool pressionou, o seu desenho inicial mudou para um 3-1-4-2, com Mané (nº10) e Salah (nº11) no comando, seguidos por quatro homens mais atrás e avançado para o meio-campo: Luis Díaz (nº23), Thiago (nº6), Henderson (nº14) e Alexander-Arnold. Ao mesmo tempo, quando o Real Madrid tentava construir em terrenos mais avançados, foi notável ver Salah, Mané e Diaz em zonas mais centrais para fechar o espaço no centro do meio-campo.

A pressão do Liverpool em 3-1-4-2
A pressão do Liverpool em 3-1-4-2UEFA

Real Madrid

O Real Madrid assentou numa estrutura de 4-3-3, embora quando tinha a posse de bola Valverde (nº15) caísse para a direita, como havia feito em jogos anteriores, transformando assim o desenho táctico em 4-4-2.

Geralmente, Carlo Ancelotti preparava a sua equipa para jogar mais recuada, garantindo que não houvesse espaço nas costas para ser explorado pelos avançados do Liverpool. Casemiro (nº14), o médio-defensivo, baixou muitas vezes para junto dos centrais, parecendo actuar como quinto defesa. Por seu lado, Modrić (n10) procurou ficar sempre perto de Thiago, pressionando-o o máximo possível na tentativa de limitar a sua influência e, em função disso, permitir a Fabinho ter mais bola.

Destaques

O Liverpool teve mais posse de bola (54%), conseguiu 24 remates contra apenas quatro do Real Madrid e terminou a noite com um xG de 2,19 contra 0,92 do adversário. No entanto, foi o Real Madrid a ficar com o troféu.

Uma característica óbvia do plano de jogo do campeão espanhol foi fazer lançamentos para Vinícius Júnior na esquerda. Isso ficou claro desde o início, com Valverde a ser o primeiro a procurar o brasileiro num cruzamento logo aos quatro minutos. Depois, aos sete, uma bola de David Alaba pela esquerda obrigou Alisson Becker a sair da área para cortar o lance de cabeça, antes de Alexander-Arnold completar o alívio (com uma das suas 14 recuperações). Esta acção é apresentada no primeiro clipe do vídeo acima, que mostra como, ao mesmo tempo que Alexander-Arnold é puxado para território de Real Madrid, Vinícius movimenta-se para o espaço na linha de meio-campo.

Como Fabio Capello observou, esta manobra significava que, se o Real perdesse a bola, isso aconteceria "longe de sua própria área" e tendo os seus defesas em boas posições. Foi uma abordagem sem riscos, que ficou também evidente no seu sistema táctico, com o guarda-redes Courtois e a sua defesa a não darem oportunidades ao adversário após alguns sustos iniciais. Nas palavras de Packie Bonner, quando eram pressionados, apostavam em passes longos".

Todo os golos do Real Madrid esta época

Os homens de Ancelotti tiveram que suportar a pressão na primeira parte, principalmente durante os cinco minutos mencionados mais acima, que proporcionaram ao Liverpool cinco remates. Frank de Boer observou que os Reds retiraram alguns dividendos com Jordan Henderson na lateral direita, Salah a entrar de trás para a frente e Alexander-Arnold aparecendo no espaço vazio.

"Henderson dá mais largura e eles tentam jogar nos espaços intermédios", disse. Isto provocou o primeiro dos seis remates à baliza por parte de Salah na final, quando o passe diagonal de Thiago para Henderson levou o capitão a procurar Alexander-Arnold, cuja corrida e cruzamento permitiram um pontapé rasteiro do egípcio, frustrado por Courtois.

A rotação do Liverpool na ala
A rotação do Liverpool na alaUEFA

James viu a influência de Thiago mais forte nesse jogo. "O Thiago é fundamental para o sucesso do Liverpool e naquela primeira parte, quando Thiago assumiu cedo a posse de bola, as coisas começaram a acontecer. Passaram-se 15 minutos até ele pegar realmente na bola e então vimos várias boas oportunidades." O pior para o Liverpool é que, a partir daí, a influência de Thiago foi mais esporádica.

Os problemas físicos do jogador exigiram que ele aquecesse longe do resto da equipa, assistido por um fisioterapeuta, e sem que conseguisse assumir a sua preponderância no jogo, acrescentou James, "a construção era Alisson a dar a bola para Konaté ou [Virgil] van Dijk e depois esta era jogada para a frente ou para as alas". De facto, James acrescentou que viu semelhanças com os recentes jogos em casa do seu antigo clube contra o Villarreal e o Tottenham Hotspur, os quais evidenciaram que "quando se consegue impedir o Liverpool de marcar cedo, ele tem problemas".

À medida que a influência de Thiago diminuiu, o Liverpool não conseguiu pressionar com tanta intensidade – o médio espanhol fez mais intercepções (quatro) do que qualquer jogador na final – e a visão do painel de observadores foi que os Reds deixaram de ter a influência total por parte de um jogador que terminou o encontro com 94,4% de eficácia de passe no último terço do campo. Depois, aos 77 minutos, Thiago foi substituído por Roberto Firmino, enquanto Naby Keïta, um tipo diferente de médio, entrou para o lugar de Henderson ao mesmo tempo.

O painel de observadores técnicos também se interrogou sobre se a longa campanha do Liverpool, disputada em quatro frentes, teve peso nesta final. Este foi o seu 63º jogo e Capello reflectiu: "Vi que o Liverpool não esteve tão rápido como no resto da época." Martínez concordou: "Não vi a velocidade que é costume." Os comandados de Jürgen Klopp conseguiram 65 recuperações nos 90 minutos, das quais 31 aconteceram nos primeiros 35 minutos.

A pressão do Liverpool a etapa inicial – com Alexander-Arnold dando-lhes um quarto homem no meio – ajudou a impedir Modrić de ter a posse de bola. De facto, o croata fez apenas dois passes no último terço antes do intervalo. No entanto, o jogo mudou na segunda parte, quando o veterano médio médio começou a iniciar as jogadores do Real Madrid ao lado dos defesas-centrais, agora mais subidos.

Vinícius Júnior: "Não há nada melhor do que isto"

Frank de Boer deu crédito à gestão de jogo do Real Madrid, à sua capacidade de sentir quando era a hora certa para alterar o ritmo a nível ofensivo. "Essa é a qualidade do Real Madrid: reconhecer esses momentos. Na primeira parte, quando tinha a bola, tentava jogar directamente para Vinícius e ele começava a correr imediatamente. Mas, de repente, na segunda parte, eles podiam jogar mais entrelinhas. A etapa complementar foi mais controlada pelo Real Madrid e depois do golo foi o mesmo que dizer: 'Fizemos o nosso trabalho, agora tenta lá marcar, Liverpool'."

Entretanto, Aitor Karanka, vencedor da Champions League pelo Real Madrid como jogador, citou a mentalidade vencedora que os ajudou a conseguir fugas impossíveis como Houdini contra Paris Saint-Germain, Chelsea e Manchester City. "É a mentalidade, é a camisola. Não os vemos entrar em pânico."

Se Benzema, com 15 golos, foi o herói do Real Madrid a caminho desta final, os defesas mereceram elogios particulares do painel de observadores técnicos pelos esforço feito no Stade de France. Éder Militão fez o maior número de alívios (quatro) do jogo e venceu seis dos seus sete duelos – levando um encosto de felicitação por parte do também central David Alaba, após desviar um remate perigoso de Sadio Mané na primeira parte.

Veja o Real Madrid erguer o troféu

No lateral-direita, Carvajal chamou igualmente a atenção dos observadores, vencendo três de seus quatro desarmes, incluindo um no primeiro tempo, quando Diaz parecia ter passado por ele no lado direito do Real Madrid , mas o defesa recuperou e saiu a jogar com o bola. Quanto a Valverde, além de ter feito o passe para o golo da vitória, as suas estatísticas mostraram três dos cinco duelos ganhos e maior distância média do jogo percorrida com bola: 8,5m.

O Real Madrid também defendeu bem nas bolas paradas do Liverpool. Os Reds tinham marcado oito golos desta forma a caminho da final, mas os seus seis pontapés de canto produziram apenas um remate à baliza, numa tentativa de Henderson de fora da área após Benzema aliviar a primeira bola de Robertson para a área. Frans Hoek observou que um dos três cantos de Alexander-Arnold foram para o poste mais próximo, tal como o que permitiu a Divock Origi marcar contra o Barcelona na meia-final de 2019, mas neste caso havia jogadores de camisola branca atentos à ameaça.

O Real Madrid  a defender o primeiro poste
O Real Madrid a defender o primeiro posteUEFA

O único canto do Liverpool marcado para o poste foi interceptado pela figura gigante de Courtois e Capello elogiou Ancelotti pela maneira como o Real Madrid se preparou para defender as bolas paradas, com "os jogadores do Real Madrid todos no primeiro poste porque se for uma bola longa [para trás], ela é do Courtois. Normalmente, o Liverpool é muito perigoso. Eles marcaram muitos golos, mas não fizeram nenhum cabeceamento dentro da área [no sábado]. Ele preparou tudo."