Inter recupera brilho de 60
terça-feira, 4 de maio de 2010
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Sandro Mazzola, ex-jogador que fez parte da última equipa do Inter a conquistar a Europa, espera que as semelhanças entre a sua equipa e a actual sejam um bom prenúncio para a final.
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Da última vez que o FC Internazionale Milano se sagrou campeão europeu, ainda a televisão era a preto-e-branco. Desde essa altura, a tecnologia passou para o HD, mas, de acordo com Sandro Mazzola, emblemático ex-jogador dos "nerazzurri", as equipas que ergueram o troféu em 1964 e 1965 têm mais do que uma ligeira semelhança com aquela que vai defrontar o FC Bayern München na final da UEFA Champions League. É uma parecença/semelhança, como fez questão de referir ao UEFA.com, que começa nos treinadores: Helenio Herrera e José Mourinho.
"Penso que Mourinho é muito parecido com Herrera em vários aspectos", afirmou Mazzola, que bisou na vitória do Inter sobre o Real Madrid CF, por 3-1, em 1964. "Primeiro, porque introduziu imediatamente a bola nos treinos – em alguns locais de Itália ela é um pouco esquecida, mas é a ferramenta mais importante na profissão de um futebolista. Herrera fez o mesmo quando chegou a Itália. Não treinávamos muito com bola, mas quando ele chegou começámos a fazê-lo de imediato.
"Outro paralelo é a sua relação com os jogadores", continuou o ex-jogador, de 67 anos. "Eles dizem: 'Eu sou o treinador, escuto as vossas opiniões, mas sou eu que decido'. E também são parecidos na forma como lidam com a comunicação social. Estamos a falar de gerações diferentes, por isso na altura foi um pouco diferente, mas não muito. Quando Herrera veio para Itália, ninguém conhecia os nomes dos treinadores, ninguém se preocupava com eles, raramente apareciam nos jornais e o seu trabalho decorria apenas no balneário e no relvado. Mas ele mudou tudo isso. Mourinho, ao seu jeito, é um pouco como ele".
Outra ligação entre as equipas é o nome do presidente. Angelo Moratti, que dirigiu o Inter de Mazzola, era pai do actual responsável, Massimo Moratti. "Angelo foi o primeiro presidente da era moderna, que percebia de futebol", disse Mazzola. "Guiou o clube com ideias claras e ordem. Sabia como ser humano nos seus relacionamentos. Penso que foi o primeiro grande presidente do futebol italiano".
Muitos observadores comparam as tácticas utilizadas por Mourinho na segunda mão das meias-finais, frente ao FC Barcelona, ao estilo "catenaccio" que tornou a equipa de Herrera famosa. Os "nerazzurri", em vantagem por 3-1 depois da primeira mão, em Itália, deram uma lição defensiva, perdendo apenas por 1-0 em casa do campeão em título – apesar de jogarem mais de uma hora com dez jogadores – para carimbar a passagem à final do dia 22 de Maio, no Santiago Bernabéu. Se as circunstâncias exigiam uma abordagem tão defensiva da parte dos jogadores de Mourinho na Catalunha, Mazzola insiste que a geração de 60, ao contrário do que na altura se pensava, jogou muitas vezes ao ataque.
"Quando ouço dizer que o Inter recorre ao 'catenaccio', respondo que a equipa onde alinhei disputou seis jogos recorrendo ao 'catenaccio' e 40 a praticar futebol de ataque", revelou o antigo avançado transalpino. "Recordo-me que os meus companheiros de equipa [Armando] Picchi e [Aristide] Guarneri, dois defesas-centrais, durante os jogos em casa, no San Siro, podiam passar 60 minutos a olhar para as bancadas, tentando avistar uma rapariga com quem sair nessa noite, porque os jogadores adversários não saíam do seu meio-campo. Mas na altura, quando nos deslocávamos ao estrangeiro – e penso que era um erro – não nos sentíamos muito confortáveis e seguros, por isso éramos mais defensivos".
Mesmo assim, 'La Grande Inter' (o Grande Inter), conseguiu vencer Real e Benfica das duas vezes que conquistou o troféu, com Mazzola a recordar perfeitamente as partidas frente a "grandes jogadores", como Alfredo di Stéfano e Eusébio. Os festejos que se seguiram deixaram uma impressão ainda mais profunda. "Fantástico – carros por todo o lado, foi muito bom, talvez a primeira vez que se tenha celebrado dessa maneira. Foi a primeira vez que as pessoas vieram receber-nos ao aeroporto, em locais onde não estavam autorizadas – simplesmente fantástico".
Passaram-se 45 anos, no entanto Mazzola, que também marcou na derrota por 2-1 frente ao Celtic FC, em 1967, em Lisboa, e alinhou no desaire por 2-0 com o AFC Ajax, em 1972, pensa que é chegada a altura de o conjunto milanês voltar a saborear a glória europeia. "O Inter já esteve muito perto, sendo eliminado nas meias-finais ou perdendo a final. Mas mesmo agora, quando se fala em 45 anos, parece que não foi há tanto tempo assim – talvez porque o tenha vivido e me pareça mais próximo no tempo. Mas se pegarmos no número 45 e somarmos os dois algarismos dá nove, e esse é um número de sorte para mim, por isso pode ser um bom ano".