Lampard rei das emoções
quinta-feira, 1 de maio de 2008
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Numa noite de emoções fortes em Stamford Bridge, a frieza de Frank Lampard na conversão de um penalty destacou-se como um momento especial.
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Para os adeptos nas bancadas de Stamford Bridge o sofrimento era intenso enquanto Chelsea FC e Liverpool FC se digladiavam pela oportunidade de defrontar o Manchester United FC na final da UEFA Champions League. Era difícil adivinhar que emoções sentia Frank Lampard quando, uma semana depois da sua mãe ter falecido, avançou para converter o penalty que deixou o Chelsea com a primeira final da competição à vista.
Primeira final
Este jogo entre dois rivais ingleses teve de tudo, até mesmo golos - cinco naquela que foi a terceira ocasião em quatro épocas que estas equipas se defrontaram nas meias-finais. Pela primeira vez, foi o Chelsea que seguiu em frente, vencendo o jogo por 3-2 e a eliminatória por 4-3. Os londrinos disputavam a quarta meia-final em cinco participações e não queriam desperdiçar nova oportunidade; Lampard estava determinado em conseguir o feito. O médio da selecção inglesa havia ficado de fora do desafio contra o Manchester United, mas com tanta coisa em jogo, regressou para contribuir de forma decisiva. Michael Ballack havia convertido a grande penalidade que derrotou o United, mas desta vez Lampard assumiu a responsabilidade e atirou rasteiro para o lado esquerdo de Pepe Reina, com oito minutos de prolongamento, dando uma vantagem de 2-1 ao Chelsea. Depois veio a comemoração, deslizando de joelhos pelo relvado ensopado.
Desgaste de emoções
Olhou para o céu, beijou o fumo negro na manga da camisola e apontou para o pai na bancada. Uma noite já de si emocionalmente desgastante teve outro momento forte. Não que o jogo tivesse acabado. Ainda houve tempo para Didier Drogba fazer o terceiro tento e até para Ryan Babel reduzir para o Liverpool perto do final. Porém, a equipa de Avram Grant recusou-se a baquear. Existe agora uma sensação de que nada pára o Chelsea: quando parece estar em baixo recupera e é assim que mantém acesa a luta pelo título no campeonato inglês, atingindo também um ponto sem precedentes na Europa.
"Indíviduo normal"
Quando Grant, em Setembro, substituiu o "Special One" José Mourinho, perguntaram-lhe como se descrevia. "Simplesmente um indivíduo normal", foi a resposta. Sete meses depois, quando os 'blues' se preparam para defrontar o United - cujo treinador Sir Alex Ferguson se encontrava na bancada - na sua primeira final de sempre da UEFA Champions League, Grant poderá ter de rever essa declaração. Nem Mourinho chegou tão longe. A equipa estava decidida a fazer desta a sua noite, tal como Drogba havia anunciado. Espicaçado pelos comentários antes da partida do treinador do Liverpool, Rafa Benítez, o costa-marfinense rapidamente mostrou-se em campo. Antes do final da primeira parte já Martin Škrtel havia saído após um carrinho em esforço procurando desarmar Drogba e Steven Gerrard teve sorte em não seguir o destino do central, após ter sido apanhado de surpresa pelo ponta-de-lança.
Duelo de Drogba
Com um aceno de cabeça, talvez para Benítez, Drogba ganhou um livre no primeiro minuto, merecendo os aplausos dos adeptos, furiosos pelas acusações de que este caía com muita facilidade. Com Jamie Carragher pela frente, o costa-marfinense teria um duelo de pesos-pesados no qual seria o primeiro a desferir golpes. Por duas vezes em 20 minutos levou a melhor sobre o central, mas desperdiçou uma ocasião de golo, apesar da boa posição em que se encontrava. Porém, Drogba acabaria por se emendar rapidamente. O restabelecimento emocional de Lampard havia dado alento ao Chelsea antes do pontapé de saída, mas mais significativo ainda seria a sua contribuição aos 33 minutos, quando desmarcou Salomon Kalou à esquerda. O remate deste foi defendido, mas Drogba lá estava por perto para a recarga vitoriosa: comemorou correndo ao longo da linha, festejando em frente ao banco do Liverpool.
À moda antiga
O capitão do Chelsea, John Terry, havia falado de uma "dor ardente" antes da meia-final, embora algum desse fogo deva ter sido apagado pela chuva torrencial. À medida que os dois grupos de adeptos elevaram a temperatura e o relvado ia ficando mais encharcado, dava a sensação de que iria acontecer uma batalha à antiga moda da Liga inglesa. Claro que seria tudo menos isso. O dono do Chelsea, Roman Abramovich, mudou o futebol inglês desde que comprou o clube de Stamford Bridge em 2003, tendo investido perto de 350 milhões de euros em jogadores, transformando o clube numa superpotência dentro e fora de Inglaterra. Dois campeonatos, duas Taças da Liga e uma Taça de Inglaterra foi tudo quanto o Chelsea conquistou, mas nunca o título mais desejado pelo russo. E que melhor altura para alcançá-lo que não agora, com a sua querida Moscovo como palco da final?
Fim da longa espera
Mesmo com tão perfeito cenário e com Sir Alex na assistência, a observar o jogo com um ar intrigado, o Liverpool nunca foi presa fácil. Quando Torres marcou, obrigando a prolongamento, os adeptos visitantes, tão habituados a ver a sua equipa triunfar nesta competição sob o leme de Benítez, cantaram "não seremos demovidos". Desta vez foram e prevaleceu o Chelsea.