A odisseia de Ancelotti
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
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O uefa.com passa em revista a UEFA Champions League 2006/07, numa temporada em que Carlo Ancelotti guiou o Milan ao seu sétimo título.
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Ao enfrentar a imprensa após conquistar a UEFA Champions League em Atenas, no último mês de Maio, ficou claro que Carlo Ancelotti tinha completado a sua odisseia pessoal. A caminhada revelou-se longa e dura, mas para o treinador de 47 anos o facto de o destino ser tão inesperado tornou tudo mais saboroso.
Período difícil
Da última vez que o AC Milan tinha subido ao relvado do Estádio Spyro Louis, em Novembro último, a equipa comandada por Ancelotti estava a atravessar o seu pior período. No 16º lugar da Serie A, o Milan tinha ganho apenas um dos seus últimos quatro jogos no campeonato. Longe da mente estava a UEFA Champions League, pois o principal objectivo da temporada era simplesmente garantir um lugar de acesso às competições europeias. "Aproveitámos essa ocasião para ficar a conhecer melhor o terreno de jogo, porque sabíamos que cá íamos voltar para disputar a final", brincou Ancelotti, relembrando a derrota por 1-0 sofrida nesse encontro. "Obviamente, não podíamos ter essa certeza, porque foi, de facto, um período complicado para nós". As lesões de Massimo Ambrosini e Alessandro Nesta estavam a causar graves problemas ao Milan. Andrea Pirlo e Gennaro Gattuso estava em baixo de forma, depois de ambos terem dado o máximo para ajudar a Itália a vencer o Campeonato do Mundo e os "rossoneri" sentiam as consequências de uma pré-época muito complicada.
Pontos subtraídos
Os planos tiveram de ser refeitos à última da hora, quando o Milan viu serem-lhe subtraídos oito pontos devido à sua participação no escândalo da fraude desportiva, que também implicou que a equipa tivesse de disputar a terceira pré-eliminatória da UEFA Champions League. Os milaneses não sentiram dificuldades para bater o FK Crvena Zvezda, mas as consequências de terem que disputar esses jogos iriam sentir-se ao longo da temporada. Quando o Milan perdeu frente ao AEK, em Novembro, o cargo de Ancelotti estava preso por um fio. "O futebol é assim", afirmou. "Não me deixei perturbar pelos rumores sobre a minha saída, porque neste desporto, quando as coisas não estão a correr bem, pagamos por isso. Mas nunca me senti ameaçado. A conquista da [UEFA] Champions League tem tanto de inesperado como de fantástico. Quando olho para trás, para Dezembro, vejo que tivemos de ultrapassar tantos obstáculos, o que torna esta vitória muito especial. Conseguimos manter a harmonia, apesar de todos os problemas".
"A maior vitória do clube"
Ancelotti conquistou por duas vezes a Taça dos Clubes Campeões Europeus ao serviço do Milan enquanto jogador e já tinha levado a equipa à vitória nesta competição em 2003 como técnico. Nada, contudo, se pode comparar aos sentimentos vividos no Estádio Spyro Louis. Se perder nas grandes penalidades com o Liverpool, há duas temporadas, depois de estar a vencer por 3-0, tinha sido o ponto mais baixo da sua carreira, este revelou-se, sem dúvida, o mais alto. E a palavra vingança não teve nada a ver com isso. "É a maior vitória que já alcançámos", garantiu. "Nunca perdemos de vista este objectivo. Poucas pessoas e adeptos esperavam ver o Milan conquistar o mais importante dos troféus nesta temporada, talvez mesmo ninguém o esperasse. Independentemente de todas as taças que já conquistei, trata-se de uma relação especial. O que já alcancei deve-se ao facto de me sentir parte do Milan. Vesti esta camisola enquanto jogador, e conquistar troféus importantes representando este emblema fortalece os meus sentimentos e a minha ralação com o clube".
Estádio de Inverno importante
O relacionamento é ainda mais forte com os seus jogadores e o técnico destaca a paragem de Inverno, em Malta, como o ponto de viragem da época. "Penso que em Malta trabalhámos muito bem e o espírito de equipa cresceu. Queríamos esquecer o que tinha acontecido em Agosto, as más exibições e a subtracção de pontos. Mas não quero que se veja esta vitória como uma vingança face a esse escândalo. O futebol italiano sofreu muito no último Verão, especialmente o Milan, mas esta é uma importante vitória para o futebol em Itália. Podemos ficar mais serenos e recuperar alguma da nossa credibilidade".
"Motivação"
As alterações tácticas de Ancelotti ao longo da temporada tiveram um papel muito importante nisso. Por exemplo, a decisão de colocar Kaká numa posição mais avançada no terreno, atrás do ponta-de-lança, transformou a época do Milan. Mas é pelas suas capacidades motivadoras que Ancelotti é mais referenciado pelos seus jogadores. Como se viu, o técnico conseguiu despertar o que de melhor há em Filippo Inzaghi. Tendo usado o veterano avançado apenas a espaços desde o início do ano, o técnico conseguiu que o regresso do jogador de 33 anos à titularidade fosse devastador. "Tento tirar o melhor dos meus jogadores", revelou Ancelotti ao uefa.com após os dois golos apontados por Inzaghi terem carimbado a vitória sobre o Liverpool.
Energias renovadas
"Tivemos maus momentos ao longo da época e recordar esses períodos ajudou a encontrar novas forças. Antes do jogo tinha uma grande dúvida sobre se devia fazer alinhar Inzaghi ou [Alberto] Gilardino. O Gilardino estava em boa condição física e a sua força poderia ser importante, mas resolvi optar pela maior experiência do Inzaghi". E a experiência mostra que nunca devemos descartar o Milan. Como a formação italiana provou frente ao Manchester United FC, nas meias-finais, a equipa exibe-se ao melhor nível sempre que tem de lutar contra adversidades. O eterno rival FC Internazionale Milano pode ter conquistado a Serie A esta temporada, mas uma vez mais são os "rossoneri" a rir por último.