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Nené, 50 anos de ligação ao Benfica

Publicado: segunda-feira, 3 de Abril de 2017, 9.00CET
Numa conversa exclusiva com o UEFA.com, Tamagnini Nené – atleta com mais jogos pelo Benfica e seu terceiro melhor marcador – fala sobre 50 anos de ligação ao clube: 19 como jogador e 31 na formação.
por José Nuno Pimentel
de Lisboa
Nené, 50 anos de ligação ao Benfica
Tamagnini Nené chegou ao Benfica há 50 anos e está ligado ao clube desde então ©SL Benfica

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Publicado: segunda-feira, 3 de Abril de 2017, 9.00CET

Nené, 50 anos de ligação ao Benfica

Numa conversa exclusiva com o UEFA.com, Tamagnini Nené – atleta com mais jogos pelo Benfica e seu terceiro melhor marcador – fala sobre 50 anos de ligação ao clube: 19 como jogador e 31 na formação.

Nascido a 20 de Novembro de 1949, Tamagnini Nené aterrou sozinho em Lisboa para jogar no Benfica, vindo de Moçambique, onde vivia, numa terça-feira de Carnaval, fez 50 anos no passado dia 7 de Fevereiro de 1967. Numa extensa conversa em exclusivo com o UEFA.com, o atleta com mais jogos oficiais disputados pelas “águias” (575) e o terceiro melhor marcador de sempre do clube, com 359 golos – apenas atrás de Eusébio e José Águas –, fala sobre meio século de ligação ao Benfica: 19 anos como jogador e 31 no futebol jovem, actualmente no cargo de Director da Formação - Relações Externas.

Palmarés e números
Ligas portuguesas: 10 (1969, 1971, 1972, 1973, 1975, 1976, 1977, 1981, 1983, 1984)
Taças de Portugal: 7 (1970, 1972, 1980, 1981, 1983, 1985, 1986)
Supertaças de Portugal: 2 (1981, 1986)
Melhor marcador: 1981 (20 golos), 1984 (21, em igualdade com Fernando Gomes, do FC Porto)
Jogos no Benfica: 936
Golos no Benfica: 551
Carreira por Portugal: 66 jogos, 22 golos

Sobre 50 anos de ligação ao Benfica...
Cheguei miúdo, cresci e aprendi tudo no Benfica. Aquilo que sou hoje devo-o ao Benfica. O primeiro amor da minha é o Benfica porque conheci-o antes da minha esposa!

©SL Benfica

Nené num jogo do Benfica contra o Estoril no antigo Estádio da Luz

Sobre os primeiros anos...
O meu pai é de Vila Real de Santo António e montava fábricas de mosaicos. Aconteceu que teve um trabalho em Leça da Palmeira, esteve lá dois anos e nasceram dois filhos. Regressámos ao Algarve e passados uns tempos partimos como colonos para África. Foi um risco, mas adaptámo-nos muito bem à Beira e a Moçambique, onde cresci até quase aos 17 anos, altura em que o Benfica se interessou por mim quando actuava no Ferroviário da Manga. E passados uns cinco meses estava de malas aviadas para Lisboa.

Quando era miúdo, só queria ser jogador de futebol ou artista de belas artes. Acabei por ser jogador de futebol e no Benfica porque tinha um primo, [Domiciano] Cavém, que tinha sido bicampeão europeu. É meu primo direito – o pai dele é irmão do meu pai –, deu-me todo o apoio e estava sempre comigo. A relação com a pintura penso que tem a ver com a minha sensibilidade e gosto pela natureza, mas fui sempre artista só em casa.

Sobre a chegada a Lisboa...
Aterrei em Lisboa no dia 5 de Fevereiro de 1967 para jogar nos juniores. Viajei sozinho e fui directo do aeroporto para o Lar do Benfica, na Calçada do Tojal [situado no bairro de Benfica, não muito longe do antigo Estádio da Luz]. Cheguei às 6h00 ou 7h00 da manhã e meteram-me a dormir! Para quem estava habituado a levantar-se antes dessa hora, aquilo foi um choque.

Recordo com muita gratidão o senhor Manuel e a dona Otília, o casal que estava à frente do Lar do Benfica. Ajudaram-me muito naqueles primeiros tempos difíceis sozinho; foram a minha segunda família, uns segundos pais. Ainda fiz alguns jogos e golos nesse campeonato de 1966/67. Estreei-me com 17 anos num jogo amigável fora frente ao Palmelense, em que ganhámos por 4-2, no dia 25 de Maio desse ano.

©Getty Images

Eusébio no Benfica em 1962

Sobre Coluna e Eusébio...
Havia um enorme respeito por todos aqueles nomes e ao pé do [Mário] Coluna quase nem conseguíamos falar... Fiquei com ele no quarto na primeira vez em que fui para o centro de estágio num jogo dos seniores e as únicas palavras entre nós foram bom dia e boa noite.

O Eusébio era uma pessoa muito humilde e um atleta exemplar. Dava-se bem com toda a gente e estava sempre pronto a ajudar as pessoas. Era grande dentro e fora de campo. Todos conhecíamos os seus excessos, mas ele chegava dentro de campo e era sempre o melhor. Era um super-atleta. Trabalhava muito depois dos treinos, a correr, a rematar, a marcar livres... Tinha muita vontade em afirmar-se, de ser o melhor e de marcar golos.

Eu era o jogador que ficava habitualmente ao lado da bola quando ele ia bater os livres: ou tocava-a para o lado para ele rematar ou dizia-me “agora não” porque ia bater directo. Tinha uma capacidade anormal para rematar e marcar livres e para meter a bola onde queria. Numa das primeiras vezes a jogar com ele – não me recordo do jogo, mas sei que foi no Estádio da Luz –, segredou-me: “Nené, agora não tocas na bola que eu vou bater directo para ali”. E assim foi: meteu a bola na gaveta, como se costuma dizer, e eu fiquei sem reacção a pensar como tinha feito aquilo...

Sobre a mudança de médio e extremo para ponta-de-lança...
Como todos os jogadores naquela altura, quando subi a sénior iniciei-me na equipa de reservas e só quando veio o [Jimmy] Hagan, em 1970/71, é que comecei a jogar mais regularmente. No começo dessa temporada, o Benfica tinha agendada uma digressão por África, a Angola e a Moçambique, onde viviam os meus pais, mas eu não era para ir. Então perdi a vergonha, fui falar com ele e pedi-lhe que me levasse porque não os via há quase três anos... Fiquei sensibilizado com a sua atitude porque garantiu-me, logo ali, que iria na comitiva.

©SL Benfica

Nené festeja um golo marcado pelo Benfica ao Sporting

Depois, no jogo em Angola, o [ala direito] Jaime Graça lesionou-se e o mister mandou-me substituí-lo (o José Augusto tinha terminado a carreira uns anos antes). Logo eu, que tinha sido médio-centro e extremo-esquerdo nos juniores, ia jogar como médio-direito...

A partir daí, fiz os jogos todos sempre a extremo-direito. Vi os meus pais depois em Lourenço Marques, local do jogo em Moçambique, e foi uma emoção enorme após tanto tempo sozinho em Lisboa apenas com o apoio familiar do Cavém.

Quando regressámos a Portugal a oportunidade no campeonato também não demorou muito a chegar. Acabei por actuar a extremo-direito até à época de 1975/76, com o Mário Wilson. Já fazia alguns golos e ele um dia disse-me que eu ia jogar era a ponta-de-lança porque era muito rápido, desmarcava-me bem e lia muito bem o jogo e os adversários. E pronto, a partir daí foram golos e mais golos...

Sobre usar a camisola com o número 7...
Quando comecei a jogar com o Hagan a extremo-direito, ele deu-me o número 7 porque em Inglaterra todos os extremos-direitos eram o 7. Depois quando passei a ponta-de-lança já não quis mudar.

Sobre jogos e golos importantes...
Houve muitos golos e jogos marcantes: os cinco ao Ajax no Torneio de Paris ficam para sempre, o “hat-trick” ao Feyenoord, no Estádio da Luz, na Taça dos Campeões Europeus, os cinco frente ao Leixões (1975/76), à Académica (1978/79) e ao Alcobaça (1982/83) no campeonato e no Estádio da Luz...

©SL Benfica

Nené completa o ''hat-trick'' contra o Porto

Mas destaco o “hat-trick” ao Porto na final da Taça de Portugal em 1981 (vitória por 3-1), não só pelos golos, mas também pelo simbolismo depois. Era o capitão de equipa e levantei a taça na Tribuna de Honra do Estádio Nacional com a camisola do Porto vestida. Se calhar hoje não era possível isto e não era normal acontecer uma coisa destas mesmo naqueles tempos – ainda hoje me emociono a falar disto! É um momento histórico e único, fica para a eternidade.

Sobre treinadores marcantes...
O [Sven-Goran] Eriksson era avançado em relação aos outros. Tinha métodos de treino diferentes e inovadores e quase todos gostavam daquilo que fazia. Parecia mais um amigo, devido à idade – é apenas dois anos mais velho do que eu –, e era como se fosse mais um de nós. Essa primeira época de 1982/83 foi muito marcante para os jogadores e para o futebol português. Por exemplo, deixámos de estagiar no hotel antes dos jogos porque ele dizia que estar junto da família era mais importante do que ficar num hotel fechado e não termos ao pé as pessoas de quem mais gostávamos.

Entre outros nomes importantes na carreira, refiro também o Hagan, pois apostou em mim com regularidade e também fez a diferença quando chegou ao Benfica. Éramos uma equipa algo acomodada, era preciso fazer mais e ele conseguiu transmitir essa mensagem.

Sobre as melhores equipas do Benfica...
As melhores foram, sem dúvida, as que ganharam as duas Taças dos Campeões Europeus! Nas que eu joguei, houve um período muito bom com o Hagan na década de 1970 com três campeonatos seguidos ganhos [1971-73].

Sobre a longevidade da carreira de jogador e os segredos...
Na década de 1970, treinava-se pouco: não se podia treinar muito porque o jogo era daí a dois dias, não se podia treinar muito porque tínhamos feito dois jogos numa semana e por aí fora... Já na altura pensava que o treino era pouco para os atletas e por isso, como vivia perto de Monsanto, depois de treinar ia para lá correr porque achava que ainda tinha mais qualquer coisa para dar e para construir. E foi assim que assim que acabei por jogar até quase aos 37 anos, senão tinha acabado como a maior parte dos jogadores dessa época, por volta dos 29/30 anos.

Quanto ao segredo da longevidade, não há segredo nenhum a não ser levar uma vida calma e sem excessos prejudiciais a um futebolista profissional. Sempre bebi só água, mesmo desde os meus tempos de jogador. Nunca tomei outra bebida qualquer, nem sequer sumos. E não tomo, nem nunca tomei, comprimidos para nada. Fui operado no passado dia 30 de Janeiro, para retirarem um pólipo (benigno) no estômago, e antes disso nem me lembro da última vez que tinha ido ao médico... É essencial fazer algum exercício físico (mesmo que seja só andar), descansar bem e ter uma boa alimentação. E fazer alongamentos é essencial para os músculos...

©SL Benfica

Nené exibe uma das duas Supertaças de Portugal ganhas pelo Benfica

Sobre o estilo de jogar...
Para singrar numa posição tão difícil como a de avançado é preciso ser rápido e estar atento a todas as situações de jogo. Dizem que eu marcava golos fáceis, mas para aparecer em posição de marcar é preciso pensar, ser inteligente, antecipar situações e jogar sem bola. Eu era um jogador muito rápido – e se calhar pensava e executava mais rápido do que os outros.

Por exemplo, quando jogava a extremo-direito quase não precisava de jogar com o pé esquerdo nem de cabecear. Já a ponta-de-lança precisava de finalizar melhor, jogar bem de cabeça e com o pé esquerdo quase tanto como com o direito. E o que fiz foi aperfeiçoar estes aspectos – quem chuta bem com os dois pés e cabeceia bem, tem de ser forçosamente melhor jogador. Ainda por cima, sendo eu muito veloz... Percebi desde muito cedo que no futebol tinha de trabalhar-se muito, tinha de treinar-se muito!

Sobre o fim da carreira e a ligação à formação...
Nunca quis ficar ligado aos seniores, pois acho que a minha sensibilidade adaptava-se melhor aos jovens. Quando deixei de jogar o [então presidente do Benfica] Fernando Martins convidou-me para ser treinador do juniores e fiquei dez anos. Fui campeão, coordenador, director e ainda sou, mas se tivesse de escolher preferia ser treinador e trabalhar com os mais novos, sem dúvida.

Sobre a academia do Benfica, o Caixa Futebol Campus...
O Benfica tem gente com muita sensibilidade e competência na formação, e que tem feito um trabalho exemplar. Isto tudo é fruto do empenho de muita gente, mas queria ressaltar aqui o trabalho do Rodrigo Magalhães, Coordenador Técnico da Área de Iniciação do Benfica. Costumo chamar-lhe de super-coordenador! Está atento a tudo, a todos os miúdos, aos jogos, às famílias... Aprendeu muito aqui, como nós todos aprendemos.

Está há 13 anos no clube e tem vindo a criar aquilo o espírito do atleta que, além da qualidade e tudo mais, é do Benfica, é também adepto do Benfica - e isso pode ver-se nos casos mais mediáticos de jogadores que saíram: Bernardo Silva, Renato Sanches ou Gonçalo Guedes. Ele ajudou esta academia a tornar-se numa das melhores do mundo e é um dos principais responsáveis pelos jogadores que nasceram de há dez anos para cá no Benfica.

Sobre ter treinado Rui Costa nos juniores...
O Rui Costa foi talvez o pioneiro disto, mas eram outros tempos, completamente diferentes. Quando chegou ao Benfica era um miúdo longilíneo, muito magrinho, mas com uma capacidade técnica que superava todos os outros. Se depois gostasse de treinar e o seu corpo se adaptasse a isso, toda a gente percebia que iria ser um grande jogador. E aqui não há segredos: o que é preciso é saber observar e verificar depois se o atleta tem perfil de alta competição.

©AFP/Getty Images

Bernardo Silva é agora estrela no Mónaco

Sobre Bernardo, Renato, Guedes e outros...
Bernardo Silva, Renato Sanches, Gonçalo Guedes, João Cancelo, Ivan Cavaleiro e Bruno Varela – que eu fui buscar ao Ponte de Frielas com sete anos – são jogadores que chegaram muito novos e cresceram na formação do Benfica. E que, além da qualidade, grande combatividade, enorme vontade e entrega possuem todos o tal espírito, de que falava, de serem todos benfiquistas.

Posso individualizar o caso do Bernardo Silva, é um jogador à Benfica e que sempre viveu o Benfica intensamente! Era inevitável que chegasse à equipa principal, mas escapou à malha e foi obrigado a sair. É mesmo assim... Mas ainda hoje vive o clube de maneira especial – está no Mónaco e quase todas as semanas fala no Benfica!

Sobre novos valores da formação: João Carvalho
O Benfica tem vários atletas com o trajecto juvenis-juniores-equipa B que podem vir a ter um futuro brilhante. O João Carvalho é um deles: é um médio-centro que gosta muito de entrar nas brechas que se abrem nas defesas, é exímio nisso. Também aposto muito no (defesa-direito) Pedro Pereira (produto da formação e recentemente contratado).

©Getty Images

O médio João Carvalho em acção pelo Benfica contra o Nápoles, em Dezembro passado, na UEFA Youth League

Última actualização: 03-04-17 12.25CET

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