Memórias de Eusébio: um homem com tempo para toda a gente

Repórter do UEFA.com em Lisboa, José Nuno Pimentel recorda dois encontros emotivos com Eusébio, falecido aos 71 anos: um homem humilde e afável, com tempo para toda a gente.

A trabalhar ligado à imprensa desportiva desde 1997, conheci pessoalmente Eusébio em 2003, antes do UEFA EURO 2004, disputado em Portugal.

Com todo o entusiasmo no país em redor da competição, estava na altura em serviço para a secção de Publicações Especiais do jornal Diário de Notícias incumbido da tarefa de coordenar a “Grande Enciclopédia dos Europeus de Futebol”, sobre a história do Campeonato da Europa da UEFA. Chegada a altura de descobrir a pessoa ideal para prefaciar o capítulo "As Estrelas – Galeria da Fama de A a Z", não houve dúvidas na escolha: tinha de ser Eusébio, por tudo o que representava.

Revelou-se algo desconfiado, de início, quando lhe expliquei do que se tratava. Apesar de ser uma lenda, Eusébio era parco em palavras e pouco dado a este tipo de assuntos, por isso disse-lhe que a coisa iria ser feita em jeito de entrevista, falando também da sua paixão pelo futebol e do que significava para Portugal, para o povo e para o futebol português ser anfitrião de uma competição com aquele prestígio. Resumiria depois o mais importante numas linhas e colocava o autógrafo dele no texto.

O encontro ficou marcado para o restaurante Adega da Tia Matilde, no Rego, em Lisboa, tida como a segunda casa de Eusébio, mas ele faltou à primeira chamada devido a compromissos de última hora. Fiquei frustrado, obviamente, receoso de que não fosse possível cumprir os apertados prazos de entrega do texto. Pelo que tinha ouvido durante a vida sobre o seu carácter, sabia que certamente não iria desapontar-me – penso que nunca terá deixado ninguém com esse sentimento. Pediu desculpa por ter falhado o encontro inicial e agendou nova tentativa para o dia seguinte.

Enquanto esperava no restaurante, invadia-me o nervoso miudinho das ocasiões solenes. Quando chegou, levou algum tempo a aproximar-se de mim... porque foi obrigado a parar em todas as mesas. Todos queriam falar com ele, das crianças pequenas aos graúdos – e ele teve tempo para falar com toda a gente. Quando finalmente se abeirou de mim, a conversa fluiu e pude confirmar o que todas as pessoas diziam dele: um homem humilde e amável, mais lesto a elogiar os adversários e colegas do que a enaltecer os próprios feitos.

Relembro uma passagem do referido texto de abertura, elucidativa da sua humildade e gratidão para com os outros: "Não seria quem fui e quem sou, no futebol e na vida, sem a ajuda, os conselhos e a amizade de colegas, treinadores e dirigentes com quem partilhei horas inolvidáveis."

Bem vistas as coisas, aquela circunstância tratava-se do meu segundo contacto de perto com Eusébio. O primeiro dera-se no início da década de 1980, pouco depois de ele terminar a carreira de jogador, quando, ainda muito jovem e com sonhos de jogar ao mais alto nível, tentei a sorte, com 10/11 anos, nuns treinos dos infantis das "águias" sob o seu olhar atento.

Para minha desilusão, até porque vivia no bairro de Benfica, muito perto do antigo Estádio da Luz, a experiência durou pouco e, ao contrário de outros, não fui escolhido para continuar. Contudo, foi um sonho pisar aquele relvado com o Eusébio a ver-me.

Como eu, a maior parte dos jovens que ali estava nunca sequer o tinham visto jogar. Ganhara o nosso respeito simplesmente pelos elogios à sua pessoa e ao seu talento como jogador, ouvidos aos mais velhos, vindos de todos os clubes, de qualquer desporto, de toda a sociedade. Era de todos – um verdadeiro símbolo e embaixador de Portugal por todo o Mundo. É isso que significava para o país e para futebol português. E esses são dois momentos que nunca irei esquecer.

Topo