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Eusébio em discurso directo

A lenda do Benfica e de Portugal falou aos utilizadores do uefa.com sobre os seus primeiros passos no futebol, Cristiano Ronaldo, a final da Taça dos Campeões de 1962 e desmistificou a história da ida para a Luz.

Eusébio esteve sexta-feira à conversa com os utilizadores do uefa.com
Eusébio esteve sexta-feira à conversa com os utilizadores do uefa.com ©Getty Images

Este artigo foi publicado inicialmente em Setembro de 2008.

Eusébio, lenda do Benfica e da selecção de Portugal, marcou presença na sala de "chat" do uefa.com para responder a algumas perguntas dos utilizadores e falou sobre os primeiros passos no futebol, Cristiano Ronaldo e a final da Taça dos Campeões Europeus de 1962, aproveitando ainda para desmistificar a história da ida para o clube da Luz.

cardozito: Qual foi o melhor golo que marcou?
Eusébio:
Marquei muitos golos e quase todos foram bons [risos]. Houve um, que marquei em 1965, frente ao FC La Chaux-de-Fonds, em que tabelei com o Simões, levantei a bola sobre um defesa, depois sobre outro sem que ela tocasse no chão e rematei de primeira, ainda com a bola no ar, à entrada da área. Quando a bola entrou para o fundo da baliza, o guarda-redes veio mesmo apertar-me a mão e disse-me que não havia qualquer hipótese de parar aquele remate. Acabámos por ganhar esse jogo 5-1.

monteforte: Como se procedeu a sua assinatura pelo Benfica? Conta-se a história de que era para assinar pelo Sporting e que foram alguns "truques" de Béla Guttmann que acabaram por o levar até aos "encarnados". É verdade?
Eusébio:
É tudo mentira. Nunca percebi de onde surgiu essa história. Foi a minha mãe quem assinou os contratos. Tinha 18 anos na altura. O Benfica ofereceu-me um contrato profissional e o Sporting queria que eu fosse à experiência para um clube satélite. Portanto, se o Benfica estava disposto a pagar por mim, só havia verdadeiramente uma opção. Quando cheguei a Lisboa, vindo de Moçambique, foi o Benfica quem me pagou o bilhete e viajei para Portugal com os seus dirigentes. Um amigo meu que jogava no Sporting ainda tentou convencer-me a ir para lá. O que aconteceu mais tarde foi que alguém no Sporting inventou essa "história" para explicar por que razão eles falharam a minha contratação. Chegou a dizer-se que tinha sido raptado pelo Benfica, mas tudo o que o clube fez foi levar-me para o Algarve porque em Lisboa estava a ficar um pouco deprimido, devido a dificuldades em adaptar-me ao clima e com saudades de casa.

mahmoud9: Como começou a jogar à bola?
Eusébio:
Nunca pensei que iria ser um grande jogador. Jogava futebol em criança porque adorava o desporto. Quando tinha 12 anos actuava num clube que tinha algumas ligações ao Benfica, mas o treinador não me deixava jogar porque dizia que eu era muito magrinho. Fiquei muito triste, em lágrimas, por eles não me darem uma oportunidade. Os outros miúdos do meu bairro diziam todos que eu era o melhor, mas precisei de algum tempo para conseguir convencer os treinadores de que merecia essa oportunidade. Havia duas equipas jovens com ligações ao Sporting e ao Benfica. Acabei por ter de ir para o Sporting e no primeiro jogo defrontámos o Benfica e marquei três golos. Isto levou ao despedimento do treinador do Benfica e, pouco depois, voltei para lá para jogar por eles. Tinha provado a minha razão.

monteforte: Como avalia Béla Guttman? O que o tornava diferente dos outros treinadores?
Eusébio:
Tudo. Béla Guttmann foi um mestre e significou muito para mim. Foi o treinador que mais me influenciou e marcou. Quando cheguei a Lisboa tive problemas em adaptar-me ao clima mais frio, dado ser Inverno, mas ele ajudou-me e contribuiu muito para essa adaptação. Tive sempre a sensação de que ele, desde o início, apreciava o que eu era capaz de fazer, e encorajou-me a tentar ser sempre melhor. Foi também ele que disse aos meus colegas mais velhos para me ajudarem, porque via em mim muito potencial.

cardozito: Que memórias guarda da vitória na Taça dos Campeões Europeus de 1962 com a camisola do Benfica?
Eusébio:
Foi o momento que lançou a minha carreira. Ganhar ao Real Madrid [CF] na final e ser eu a marcar dois golos, depois de estarmos em desvantagem no marcador, foi fantástico. Foi esse jogo que me fez acreditar que poderia ser um jogador de classe mundial e comecei a trabalhar ainda mais para ser o melhor que podia. Tinha apenas 19 anos quando disputei essa final.

cardozito: Que significado teve entregar o prémio de Futebolista do Ano da UEFA a Cristiano Ronaldo? Acha que ele está preparado para ser o seu sucessor?
Eusébio:
Não diria que ele pode "ocupar o meu lugar" porque, com a sua idade, já provou que pode ser ainda melhor que eu. Senti muito orgulho ao entregar-lhe o prémio e sinto-me honrado por o conhecer desde muito novo. E foi ainda mais especial por também gostar muito dele como pessoa.

nuno_jaws: O que tem impedido Portugal de, finalmente, chegar à vitória numa grande competição?
Eusébio:
Já ganhámos nas camadas jovens, mas ainda não o conseguimos a nível dos seniores. Estava convencido que íamos vencer o UEFA EURO 2004™ e foi essa a nossa grande oportunidade, mas deixámo-la escapar por pouco e temos de continuar a tentar. Em 1966 também estivemos perto de ganhar o Campeonato do Mundo, naquele que era o nosso primeiro Mundial e podíamos ter vencido a Inglaterra se o jogo tivesse sido em Goodison Park, onde já tínhamos batido o Brasil e realizado um jogo mágico contra os coreanos, mas a Federação inglesa mudou o jogo para Wembley, o que beneficiou a equipa da casa e foi pior para nós. Tivemos de ficar num hotel no centro de Londres antes do jogo e isso prejudicou-nos. Lembro-me tão bem disso e ainda dói bastante não termos conquistado esse título.