O "site" oficial do futebol europeu

Combinar competição e desenvolvimento

Combinar competição e desenvolvimento
O troféu em disputa no Campeonato Europeu de Sub-19 Feminino da UEFA ©Sportsfile

Combinar competição e desenvolvimento

O talento exibido pela próxima geração da elite do futebol feminino foi evidente desde o sorteio da fase final do Campeonato da Europa Feminino Sub-19 da UEFA. Cinco das oito equipas que venceram a prova desde que esta deixou de ser Sub-18, em 2001/02, estiveram representadas quando o mapa do torneio ficou definido em Haifa. No entanto, não houve espaço para a campeã Holanda, eliminada pela Dinamarca na Ronda de Elite.

O anfitrião Israel seria o 26º país a competir nesta fase final, e a sua experiência durante a fase de grupos viria a revelar-se um marco importante no desenvolvimento do futebol feminino israelita. O seleccionador Guy Azouri tinha reunido as 24 melhores jogadoras ao seu dispor, entre os 15 e os 19 anos, numa academia especial nos dois anos antes da fase final. Para além disso, integrou-as no campeonato nacional por forma a avaliar de forma contínua o seu desenvolvimento, mas o jogo inaugural no Grupo A, frente à Suécia, representava um passo rumo ao desconhecido.

©IFA

Israel foi melhorando progressivamente

"Podemos fazer melhorias significativas a cada jogo porque nunca tivemos a oportunidade de disputar jogos amigáveis frente a adversários tão fortes", disse Azouri. "Mas a nossa disciplina e tácticas foram muito boas frente à Suécia, apesar de ter sido a primeira experiência da equipa a este nível".

Azouri admitiu que algumas equipas se deixariam abater perante a natureza do primeiro golo da Suécia, no jogo televisionado no Estádio Municipal de Lod, já que a capitã Nathalie Björn bateu a guarda-redes Fortuna Rubin com um chapéu de longe, a meio da primeira parte. Rapidamente a avançada Stina Blackstenius dilatou a vantagem e, com o seu 16º golo da campanha, selou um triunfo por 3-0 que viria a reflectir os desejos de Calle Barrling, seu selecionador de longa-data, de ver a equipa "no ponto" durante a fase final.

A habitual guarda-redes e capitã da Suécia, Zecira Musovic, não participou no torneio devido a compromissos com o FC Rosengård, seu clube, e a sua substituta na baliza, Emma Holmgren, ainda não tinha sofrido um remate à baliza após o fim do jogo com a Dinamarca, na segunda jornada. Nessa altura, ficou confirmado o apuramento para as meias-finais e também para o Campeonato do Mundo Feminino Sub-20 de 2016, na Papua Nova Guiné, como um dos quatro representantes europeus.

A Suécia teve de ser tacticamente astuta, bem como fisicamente forte, para alcançar uma vitória por 1-0, afastando a ameaça dinamarquesa pelos flancos e obrigando o adversário a jogar pelo ar para um ataque a cinco nos instantes finais. A equipa de Barrling acabou por prevalecer com um penalty aos 35 minutos, ganho pela inteligência de Blackstenius e convertido de forma portentosa por Filippa Angeldal.

Assim, a Dinamarca foi eliminada, depois de na primeira jornada ter perdido com a França, pelo mesmo resultado, ainda que em circunstâncias muito diferentes. Com a defesa e o meio-campo a operarem como dois blocos cooperantes em Netanya, a equipa de Søren Randa-Boldt teve oportunidades para marcar, mas só se registou um golo, aos 49 minutos, e logo para as gaulesas, por intermédio de Marie-Charlotte Léger, que ainda viu um penalty ser defendido por Naja Bahrenscheer à beira do fim. O mesmo aconteceu frente à Suécia, que teve poucas oportunidades mas aproveitou-as ao máximo, ao passo que a Dinamarca lamentou as falhas no ataque.

As diferenças no Grupo B foram ainda menores, com os apurados a ficarem definidos apenas na derradeira ronda. Tal como a França, a Espanha irradiou confiança e capacidade técnica numa goleada por 4-0 à Noruega, em Ramla, com uma exibição que incluiu todos os traços do estilo de jogo nacional em todos os escalões. A formação de Jorge Vilda já vencia por 3-0 ao intervalo, e o segundo golo de Alba Redondo, a sete minutos do fim, selou uma vitória convincente, que serviu como declaração de intenções para os rivais.

©Sportsfile

A Espanha teve de lutar pelo apuramento apesar de ter começado com uma goleada por 4-0 sobre a Noruega

Após o longo reinado de Jarl Torske à frente das Sub-19, Nils Lexerød poderia ser desculpado por imaginar o que o esperaria dada a pesada derrota. Mas ao recordar as suas pupilas do triunfo sobre a Alemanha, no início do ano, atacou a segunda partida frente ao adversário com um espírito positivo e mentalidade vencedora. A defender alto e esquematizada em 4-4-2, a Noruega concentrou-se em pressionar o portador da bola e fechando os caminhos para a sua baliza, por forma a forçar o passe directo e permitir às suas defesas-centrais imperarem no jogo aéreo para evitar problemas. Vilde Fjelldal tinha marcado o golo da vitória em La Manga, no anterior embate entre as duas selecções, e repetiu o feito ao concluir um contra-ataque logo aos cinco minutos, a que se seguiu um autogolo de Rebecca Knaak, com a Noruega a reavivar a sua campanha com um triunfo por 2-0.

Nenhuma equipa consegue chegar perto do registo de participações da Alemanha na fase final a este nível, mas a selecção germanica teve um susto no início da sua 12ª campanha, precisando de um golo aos 87 minutos, marcado de cabeça pela capitã Rebecca Knaak, para vencer a Inglaterra por 2-1. A Inglaterra foi incansável ao longo de todo o jogo, e foi recompensada pela intenção positiva das suas laterais quando Gabrielle George empatou cinco minutos após sofrer o primeiro golo, marcado por Nina Ehegötz, num pormenor de classe na primeira parte. As substituições de Maren Meinert foram as que causaram mais impacto num encontro renhido, descrito pela seleccionadora da Alemanha como "muito intenso". Enquanto a Alemanha marcou o golo da vitória na sequência de um canto, a Inglaterra acertou na barra num lance de bola parada semelhante, mostrando que a mais pequena diferença separava o sucesso do fracasso em Israel.

©Sportsfile

Espanha necessitou de golos de bola parada perto do fim para bater a Inglaterra

O 4-3-3 da Inglaterra também se revelou difícil de ultrapassar para a Espanha, que se viu em desvantagem em Ramla por culpa de um remate traiçoeiro de Natasha Flint, desde a linha do meio-campo. Pilar Garrote empatou para a Espanha no início da etapa complementar, mas apesar de toda a sua capacidade técnica, seriam dois lances de bola parada a fazer a diferença. Primeiro, o livre de Nuria Garrote foi cabeceado por Redondo, e depois, aos 90 minutos, um canto de Leire Baños foi concluído por Rocío Gálvez.

O desaire por 3-1 deixou a Inglaterra a precisar de vencer por dois golos de diferença frente à Noruega, e de um triunfo da Espanha sobre a Alemanha, para seguir em frente, mas nenhum dos cenários se verificou na terceira jornada. A passagem da Inglaterra à fase final só foi confirmada com a remarcação de um penalty frente ao mesmo adversário, na Ronda de Elite, cinco dias após o jogo ter sido inicialmente concluído, na sequência de uma decisão disciplinar, com Leah Williamson a fixar o resultado num empate a dois. Nesta partida, as duas equipas tiveram oportunidades mas não as aproveitaram, e o nulo possibilitou a qualificação de Alemanha e Espanha.

A Alemanha fê-lo na qualidade de vencedora do grupo, após uma exibição frenética ter valido um triunfo por 1-0 sobre a Espanha, na reedição da final de 2004. Forte fisicamente e com uma mentalidade vencedora a roçar o obsessivo, tem a agradecer um autogolo de Rocío Gálvez, valendo ainda uma defesa tardia de Lena Pauels para evitar o cabeceamento vitorioso de Laura Ortega. Caso a bola tivesse entrado, seria a Noruega a seguir em frente.

A França garantiu o primeiro lugar no Grupo A graças a um golo madrugador no jogo decisivo frente à Suécia, mas nenhum dos dois primeiros classificados viria a ter a tarefa facilitada em duas meias-finais contrastantes. Alemanha e Suécia marcaram três golos cada num jogo clássico que provou ser um teste de resistência e aplicação, enquanto França e Espanha deram uma lição técnica em Lod. Apesar de os estilos serem diferentes, os principais temas foram idênticos, como bem resumiu Hope Powell, observadora técnica da UEFA. "Os jogos neste torneio têm sido disputados em blocos de domínio colectivo, primeiro para uma equipa e depois para outra". As meias-finais também tiveram outra semelhança, no caso a forma como terminaram, ambas com recurso ao desempate por grandes penalidades.

Não havia sinais do frenesim ofensivo que se viria a verificar em Netanya antes do início da meia-final. Alemanha e Suécia, juntas, tinham marcado um total de sete golos em seis jogos na fase de grupos, mas com seis em 90 minutos, deram às audiências do EuroSport uma exibição impressionante do futebol feminino Sub-19, numa partida classificada por Calle Barrling como "o melhor jogo nos escalões jovens a que assisti".

©Sportsfile

Rebecca Knaak foi uma ameaça constante, mas a Alemanha acabou por ser afastada nos penalties.

A Alemanha tinha parecido cansada após o derradeiro e decisivo jogo na fase de grupos, frente à Espanha, e mostrou-se menos frenética na forma de jogar, inaugurando o marcador aos 12 minutos, num lance de bola parada. A defesa sueca mostrou-se passiva perante o livre de Jenny Gaugigl e Rebecca Knaak atacou a bola de cabeça, fazendo-a entrar junto ao ângulo. Mas com Stina Blackstenius do seu lado, a Suécia tinha uma ameaça permanente no ataque – que Maren Meinert, mais tarde, viria a admitir que "não soubemos lidar com ela".

Efectuando desmarcações inteligentes em velocidade junto a cada uma das defesas-centrais, Blackstenius tinha a astúcia para procurar espaços nas costas da defesa, a velocidade e força para arranjar espaço através das suas arrancadas e a inteligência para fazer o melhor passe assim que as colegas surgiam no apoio. Foi com uma combinação do género que surgiu o empate, já que numa dessas jogadas pela esquerda, Blackstenius assistiu Tove Almqvist, colega de equipa no Linköping, e esta, com um remate colocado e em arco, a 20 metros de distância, bateu Lena Pauels. A Suécia esteve em desvantagem apenas durante nove minutos.

Provando o ponto-de-vista de Powell sobre domínio, a jogada conduzida por Blackstenius ajudou a Suécia a retomar o controlo dos acontecimentos, e a própria avançada nao se ficou por aqui. Pauels já tinha sido chamada à acção para afastar um dos seus remates, antes de se revelar impotente para deter o cabeceamento a cruzamento de Anna Oskarsson. "Blackstenius é realmente importante para a Suécia, e com a sua capacidade para segurar a bola foi capaz de atrair as defesas e abrir espaços para as colegas", notou Hesterine de Reus, observadora técnica da UEFA.

Stina Blackstenius fez a diferença para a Suécia

A Alemanha tinha mostrado dificuldades para fazer a bola chegar às suas avançadas durante a primeira parte, mas corrigiu a situação com uma substituição no início da segunda parte, trocando Rieke Dieckmann, uma centrocampista de cariz defensivo, por Madeline Gier. No espaço de um minuto, chegaram ao empate, com Knaak a cobrar mais um lance de bola parada germânico – desta vez um canto – e Nina Ehegötz a finalizar à boca da baliza. A alteração seguinte por parte da seleccionadora Meinert deu frutos ainda mais rapidamente, já que na sua primeira intervenção, Lea Schüller cruzou para Gier, que controlou a bola de forma perfeita com o pé direito, deixando a capitã sueca Nathalie Björn fora da jogada, e finalizou com o esquerdo. No seu segundo "período de domínio", a Alemanha deu a volta ao resultado e passava a vencer por 3-2, mais uma vez recusando-se a baixar os braços, um traço que vinha caracterizando a sua campanha.

Mas Blackstenius, uma vez mais, respondeu à chamada para salvar a sua selecção. Aos 88 minutos, a No9 surgiu na área e correspondeu ao passe longo de Lotta Ökvist, após Joelle Wedemeyer ter deixado a sua posição na defesa, com o remate a sofrer desvios decisivos em Pauels e na lateral Michaela Brandenburg. Foi o seu 18º golo da época, que ajudou a quebrar o recorde da russa Elena Danilova.

A avançada estava "no ponto", tal como as restantes companheiras. A equipa tinha praticado a marcação de penalties, com Barrling a dizer às jogadoras que "não vão ser vocês as heroínas, mas sim a nossa guarda-redes". A profecia revelou-se acertada quando Emma Holmgren defendeu os remates de Gier e Felicitas Rauch, enquanto a Suécia não desperdiçou nenhuma tentativa.

Houve muito para admirar na segunda meia-final, que devido ao facto de ter começado às 21h30 locais terminou para lá da meia-noite. A Espanha começou bem, exibindo alguns toques desconcertantes e vendo a bola picada por Nahikari García ser cortada em cima da linha. Mas o ascendente rapidamente mudou, com Léger a recuar no terreno para abrir espaços para as corridas velozes de Juliane Gathrat desde o meio-campo, espaços esses que não tinham sido evidentes no primeiro jogo. Para além de se mostrar confortável com a bola na sua posse, Léger também foi capaz de utilizar força física, visível quando inaugurou o marcador, num remate à entrada da área aos 36 minutos.

©Sportsfile

O falhanço de Marie-Charlotte Léger no desempate garantiu o apuramento da Espanha para a final, à custa da França

A Espanha empatou antes do intervalo. Andrea Sánchez livrou-se da marcação de Marion Romanelli no lado esquerdo e colocou a bola em Cindy Perrault. A partir desse momento, o resultado não mais se alterou, mas os duelos individuais eram fascinantes. A Espanha cedeu a iniciativa assim que Pilar Garrote foi substituída no segundo período, com as duas equipas a disporem de oportunidades e acertando ambas nos ferros da baliza durante o prolongamento. A França substituiu a guarda-redes Perrault por Romaine Bruneau, cinco minutos antes do desempate, mas esta não conseguiu defender nenhuma das cinco tentativas espanholas, e quando Léger atirou por cima da barra, ficou confirmado o apuramento da Espanha e a reedição da final de 2012.

http://pt.uefa.com/womensunder19/season=2015/technical-report/road-to-the-final/index.html#caminho+final